Tudo o que Conduz à Vida e à Piedade
Reflexão Expositiva sobre 2 Pedro 1:3
“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude.” — 2 Pedro 1:3 (ARA)
Existe uma sensação muito comum na vida cristã: a de que talvez esteja faltando alguma coisa. Um conhecimento secreto, uma experiência espiritual especial, uma nova revelação, uma técnica, uma fórmula, alguma experiência que determinados cristãos parecem possuir e nós ainda não alcançamos.
Essa sensação pode levar pessoas a uma busca interminável por novidades espirituais. Sempre existe um novo método, uma nova campanha, uma nova promessa, uma nova “chave”, uma nova experiência ou alguém afirmando possuir algo especial que precisamos receber para finalmente alcançarmos uma vida cristã completa.
Entretanto, o apóstolo Pedro apresenta uma declaração extraordinária: Deus já nos concedeu, por Seu divino poder, tudo aquilo que conduz à vida e à piedade.
Isso não significa que já sabemos tudo. Não significa que já alcançamos maturidade completa. Não significa que não precisamos crescer. Pelo contrário: todo o restante da passagem nos chama justamente ao crescimento.
Mas significa que Deus não deixou Seus filhos espiritualmente abandonados, esperando que descubram algum segredo escondido para conseguirem viver com Ele. Em Cristo, Deus nos concedeu aquilo de que necessitamos para uma vida de fé e piedade.
E isso muda profundamente nossa maneira de compreender a caminhada cristã.
Quem escreveu essas palavras?
A carta começa:
“Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo...” — 2 Pedro 1:1 (ARA)
Pedro conhecia muito bem o que significava depender da graça de Deus. Ele havia caminhado com Jesus, viu milagres, ouviu ensinamentos diretamente de Cristo, presenciou a transfiguração, prometeu fidelidade e também falhou profundamente.
Na noite em que Jesus foi preso, Pedro negou conhecê-Lo três vezes. Entretanto, depois da ressurreição, Cristo o restaurou.
Portanto, quando Pedro escreve sobre graça, conhecimento de Cristo, crescimento espiritual e perseverança, ele não está escrevendo como alguém que jamais conheceu fraqueza.
Está escrevendo como alguém que foi sustentado pela graça.
“Graça e paz vos sejam multiplicadas”
Antes de chegarmos ao versículo 3, encontramos:
“Graça e paz vos sejam multiplicadas, no pleno conhecimento de Deus e de Jesus, nosso Senhor.” — 2 Pedro 1:2 (ARA)
Observe novamente a importância do conhecimento. Pedro não está falando apenas de acumular informações religiosas.
Existe diferença entre saber coisas sobre Jesus e conhecer Jesus. Podemos saber datas, doutrinas, versículos, termos teológicos, podemos conhecer debates cristãos, e ainda assim possuir uma vida espiritual superficial.
O conhecimento bíblico verdadeiro deve nos conduzir a uma relação cada vez mais profunda com aquele que a Escritura revela.
“Pelo seu divino poder”
Pedro começa o versículo 3 apontando para a origem de tudo: “pelo seu divino poder”. Isso elimina imediatamente qualquer motivo para orgulho espiritual.
A vida cristã não começa porque fomos inteligentes o suficiente para encontrar Deus. Não fomos nós que produzimos nossa salvação. Não somos nós que possuímos força espiritual suficiente para nos transformar. A origem está em Deus. Seu poder.
Paulo expressa uma verdade semelhante:
“Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” — Filipenses 2:13 (ARA)
Existe esforço humano na caminhada cristã, disciplina, obediência, responsabilidade. Mas tudo acontece debaixo da graça e do poder de Deus.
O Evangelho destrói nossa autossuficiência
Talvez uma das coisas mais difíceis para o coração humano seja admitir: “Eu não consigo salvar a mim mesmo.”
Gostamos de sentir que controlamos nossa vida. Gostamos de pensar que somos capazes. Mas o Evangelho começa justamente mostrando nossa incapacidade.
O pecado não é simplesmente um pequeno defeito que podemos corrigir com esforço. Precisamos de redenção. Precisamos de regeneração. Precisamos de graça. Precisamos de Cristo.
A vida cristã começa quando deixamos de confiar em nossa própria suficiência e descansamos na suficiência daquele que nos salva.
“Nos têm sido doadas”
A palavra seguinte é igualmente importante: “doadas”. Não compradas. Não conquistadas. Não merecidas. Doadas.
Essa é a linguagem da graça.
Aquilo que Deus oferece em Cristo não é pagamento por nosso desempenho religioso. É presente.
Paulo escreve:
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus.” — Efésios 2:8 (ARA)
O Evangelho confronta profundamente nossa tendência de transformar nossa relação com Deus em uma negociação. Nós obedecemos e esperamos que Deus nos recompense. Fazemos algo religioso e imaginamos que acumulamos algum crédito espiritual. Mas a graça destrói essa lógica.
Deus não é nosso devedor. Nós somos os beneficiários de Sua misericórdia.
A graça não elimina a obediência
Isso não significa que nossas ações sejam irrelevantes. Pedro deixará isso muito claro nos versículos seguintes.
A graça não produz passividade. Ela produz gratidão e transformação. Não obedecemos para comprar a aceitação de Deus. Obedecemos porque fomos alcançados por Sua graça.
Existe uma enorme diferença entre essas duas coisas.
A religião baseada em mérito diz: “Obedeça para que Deus aceite você.”
O Evangelho diz: “Em Cristo, você foi alcançado pela graça; agora viva de maneira coerente com essa nova realidade.”
“Todas as coisas”
Talvez essas sejam as palavras que mais chamem atenção no versículo: “todas as coisas”.
Pedro não diz: “algumas coisas”. Nem: “quase tudo”.
Ele declara que o divino poder de Deus nos concedeu todas as coisas que conduzem à vida e à piedade.
Precisamos compreender cuidadosamente o que isso significa. Pedro não está prometendo tudo aquilo que desejamos. Não está dizendo que Deus dará: riqueza, saúde perfeita, sucesso profissional, ausência de sofrimento, realização de todos os nossos sonhos.
O próprio contexto impede essa interpretação. Ele está falando daquilo que é necessário para vida e piedade.
Deus não prometeu satisfazer todos os nossos desejos
Existe uma diferença entre: aquilo que queremos e aquilo de que realmente precisamos para viver diante de Deus.
Muitas mensagens religiosas confundem essas duas coisas. Transformam promessas espirituais em garantias de prosperidade material.
Mas Pedro não está ensinando isso. Ele está dizendo: Deus não deixou faltar aquilo que é necessário para que Seu povo viva de maneira piedosa.
Essa promessa é ainda mais profunda do que uma promessa de conforto. Porque circunstâncias podem mudar. A piedade pode permanecer.
“Que conduzem à vida”
A primeira palavra é: vida. Na Escritura, vida é muito mais do que existência biológica.
Jesus declarou:
“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” — João 10:10 (ARA)
E também:
“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida...” — João 14:6 (ARA)
A verdadeira vida está em Cristo. O pecado promete vida, mas produz escravidão. O mundo oferece inúmeros caminhos para satisfação, mas nenhum deles consegue reconciliar o pecador com Deus.
Cristo não veio simplesmente melhorar nossa antiga existência. Ele veio nos dar nova vida.
A vida eterna começa agora
Às vezes pensamos em vida eterna apenas como aquilo que acontecerá depois da morte.
Mas Jesus declarou:
“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” — João 17:3 (ARA)
Vida eterna envolve conhecer Deus. Ela possui uma dimensão futura gloriosa, mas começa na reconciliação com Deus através de Cristo.
Portanto, quando Pedro fala de coisas que conduzem à vida, ele está falando de uma existência fundamentada na comunhão com Deus.
“E à piedade”
A segunda palavra é: piedade. Talvez essa palavra soe antiga para algumas pessoas.
Biblicamente, piedade descreve uma vida orientada pela reverência a Deus. Não é aparência religiosa. Não é simplesmente frequentar cultos. Não é utilizar vocabulário cristão.
Piedade significa que nossa relação com Deus começa a transformar nossa maneira de viver, nossa fala, nossos pensamentos, nossos relacionamentos, nossa maneira de trabalhar, nossa relação com dinheiro, nossa sexualidade, nossa maneira de lidar com conflitos, nossa vida quando ninguém está observando.
Piedade não é performance religiosa
Existe uma diferença enorme entre piedade e aparência de piedade. Jesus confrontou pessoas extremamente religiosas justamente porque sua aparência externa não correspondia ao coração.
Podemos aprender comportamentos cristãos. Podemos saber como falar. Podemos saber quando levantar as mãos. Podemos aprender frases. Podemos conhecer o ambiente religioso. E ainda assim possuir áreas inteiras da vida que não foram submetidas a Cristo.
Piedade não significa parecer espiritual. Significa viver diante de Deus.
Deus nos deu os meios para crescer
Quando Pedro afirma que recebemos tudo aquilo que conduz à vida e à piedade, podemos pensar nos recursos que Deus colocou à disposição de Seu povo.
Temos: Cristo. Temos o Espírito Santo. Temos as Escrituras. Temos acesso a Deus através da oração. Temos a comunhão da Igreja. Temos dons para servir. Temos irmãos que podem nos ensinar, corrigir e encorajar.
Não estamos espiritualmente abandonados.
A Bíblia é suficiente
Essa verdade possui uma aplicação muito importante em um tempo marcado por constantes alegações de novas revelações.
Paulo escreveu:
“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça.” — 2 Timóteo 3:16 (ARA)
E continua:
“a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.” — 2 Timóteo 3:17 (ARA)
Isso significa que não precisamos procurar ensinamentos secretos para completar aquilo que Deus supostamente esqueceu de revelar. A Escritura é suficiente para cumprir o propósito para o qual Deus a concedeu.
Cuidado com a promessa de um “nível espiritual superior”
Existe um tipo de mensagem muito sedutora: “Você ama Jesus, mas ainda falta algo.”
Então aparece alguém oferecendo esse “algo”: uma experiência, uma unção especial, uma revelação exclusiva, uma chave espiritual, um método, uma transferência, um segredo, uma campanha.
Precisamos examinar cuidadosamente qualquer ensino que produza cristãos de “primeira” e “segunda classe”, como se alguns possuíssem um acesso especial a Deus que os demais precisam receber através deles.
Pedro aponta nossa atenção em outra direção: Deus já nos concedeu, em Cristo, tudo aquilo que conduz à vida e à piedade.
Isso não significa que experiências espirituais sejam irrelevantes
Precisamos também evitar o extremo oposto. Deus pode nos proporcionar momentos profundamente marcantes. Uma oração pode transformar nossa perspectiva. Uma passagem bíblica pode nos confrontar de maneira extraordinária. Um culto pode nos marcar. Uma conversa pode mudar nossa caminhada. Mas experiências precisam ser avaliadas pela verdade.
Nossa doutrina não pode depender de: “Eu senti.” “Eu vi.” “Alguém me disse.”
Nossa referência final precisa ser: “Está escrito.”
“Pelo conhecimento completo daquele”
Pedro novamente retorna ao conhecimento de Deus. As coisas necessárias à vida e à piedade chegam: “pelo conhecimento completo daquele...”
O cristianismo não é uma busca por poder separado de Cristo. Essa é uma distinção importantíssima.
Às vezes pessoas desejam: poder espiritual, dons, experiências, autoridade, milagres, “unção”, mas demonstram pouco interesse em conhecer profundamente o próprio Cristo.
Pedro inverte essa prioridade. O centro não é o poder que podemos possuir. O centro é aquele que precisamos conhecer.
Conhecer Cristo é mais importante do que parecer poderoso
Paulo tinha um currículo religioso impressionante.
Mesmo assim declarou:
“...para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos...” — Filipenses 3:10 (ARA)
Observe a ordem. Conhecê-Lo.
A maturidade cristã não pode ser medida simplesmente pela quantidade de experiências extraordinárias que alguém relata.
O verdadeiro crescimento aparece quando nos tornamos mais semelhantes a Cristo. Mais humildes. Mais santos. Mais misericordiosos. Mais verdadeiros. Mais pacientes. Mais dispostos a servir.
“Daquele que nos chamou”
Pedro agora fala sobre chamado: “...daquele que nos chamou...”
A iniciativa novamente pertence a Deus. Ele chama. Nós respondemos.
Isso destrói a ideia de que nossa vida cristã é resultado simplesmente de nossa própria iniciativa.
Jesus disse:
“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros...” — João 15:16 (ARA)
Existe graça desde o início. Deus toma a iniciativa. Deus chama. Deus salva. Deus sustenta. E Deus conduz Seu povo à maturidade.
Chamados para Sua glória
Pedro diz: “...para a sua própria glória e virtude.”
Nossa salvação possui um objetivo maior do que nosso conforto. A glória de Deus.
Essa verdade confronta uma visão extremamente centrada no ser humano. Às vezes tratamos Deus como se Ele existisse principalmente para realizar nossos projetos.
Pedimos que abençoe nossos sonhos, nossos planos, nossos desejos. Mas a Bíblia inverte essa perspectiva.
Nós existimos para Deus.
Paulo escreve:
“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente.” — Romanos 11:36 (ARA)
A pergunta não é apenas “O que Deus pode fazer por mim?”
Talvez precisemos substituir algumas perguntas. Em vez de apenas: “Como Deus pode abençoar meus planos?” Perguntar: “Como minha vida pode glorificar Deus?”
Em vez de: “O que vou receber?” Perguntar: “Como posso servir?”
Em vez de: “Como posso ser reconhecido?” Perguntar: “Como Cristo pode ser visto através de mim?”
A vida cristã começa a amadurecer quando Deus deixa de ser apenas um meio para nossos objetivos e passa a ser reconhecido como o próprio objetivo.
As preciosas e mui grandes promessas
Pedro continua no versículo seguinte:
“pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas...” — 2 Pedro 1:4 (ARA)
Nossa caminhada está sustentada pelas promessas de Deus. Mas precisamos aprender a distinguir promessas bíblicas de promessas inventadas.
Nem toda frase começando com: “Deus vai...” é uma promessa de Deus.
Deus não prometeu que todos ficarão ricos. Não prometeu que jamais adoeceremos. Não prometeu que todos os projetos darão certo. Não prometeu ausência de sofrimento.
Mas prometeu coisas muito maiores: perdão, presença, graça, ressurreição, vida eterna, sua obra em nós, a volta de Cristo.
“Para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina”
O versículo 4 contém uma expressão que precisa ser interpretada cuidadosamente: “...vos torneis coparticipantes da natureza divina...”
Pedro não está dizendo que nos tornaremos deuses. A distinção entre Criador e criatura permanece. Estamos sendo transformados para refletir o caráter de Deus. Somos chamados à santidade.
Paulo descreve algo semelhante:
“E todos nós... somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem...” — 2 Coríntios 3:18 (ARA)
O objetivo da graça não é transformar seres humanos em divindades. É tornar pecadores cada vez mais semelhantes a Cristo em caráter.
Fugindo da corrupção
Pedro continua:
“...livrando-vos da corrupção das paixões que há no mundo.” — 2 Pedro 1:4 (ARA)
Observe que a vida cristã possui dois movimentos: aproximar-se de Cristo e afastar-se do pecado.
Não podemos dizer que desejamos crescer em Deus enquanto protegemos deliberadamente pecados que não queremos abandonar.
Graça não é licença para continuar vivendo como antes. Cristo nos salva do pecado, não apenas das consequências finais dele.
“Reunindo toda a vossa diligência”
Agora chegamos a algo que pode parecer contraditório à primeira vista. Pedro acabou de dizer que Deus nos concedeu tudo.
Então escreve:
“por isso mesmo, vós, reunindo toda a vossa diligência...” — 2 Pedro 1:5 (ARA)
Se Deus nos deu tudo, por que precisamos de diligência? Porque a graça não elimina nossa responsabilidade. Ela a torna possível. Deus fornece, nós respondemos. Deus concede os meios, nós os utilizamos.
Crescimento espiritual não acontece automaticamente
Pedro apresenta uma sequência:
“associai com a vossa fé a virtude; com a virtude, o conhecimento; com o conhecimento, o domínio próprio; com o domínio próprio, a perseverança; com a perseverança, a piedade; com a piedade, a fraternidade; com a fraternidade, o amor.” — 2 Pedro 1:5–7 (ARA)
Observe o equilíbrio. Deus já concedeu aquilo de que precisamos.
Mas Pedro diz: cresçam. Desenvolvam. Pratiquem. Perseverem.
A maturidade cristã não acontece simplesmente porque o tempo passou. É possível frequentar uma igreja durante décadas e permanecer espiritualmente imaturo.
Fé
Pedro começa com: fé. Tudo começa na confiança em Deus. Não estamos construindo nossa salvação através das virtudes seguintes.
Estamos desenvolvendo uma vida que nasce da fé.
Virtude
A fé precisa produzir caráter. Não basta afirmar: “Eu creio.”
A pergunta seguinte é: “Como aquilo em que acredito está transformando minha maneira de viver?”
Conhecimento
O cristão precisa crescer em compreensão. Não deveríamos permanecer eternamente dependentes de frases isoladas e mensagens superficiais.
Precisamos conhecer a Palavra. Aprender doutrina. Desenvolver discernimento.
Domínio próprio
Essa virtude é especialmente necessária em uma cultura que constantemente diz: “Siga seus desejos.”
A Bíblia ensina algo diferente. Nem todo desejo deve ser obedecido. Alguns precisam ser negados.
Domínio próprio significa que nossos impulsos não precisam governar nossa vida.
Perseverança
Existem coisas que só aprendemos continuando. A fé precisa sobreviver aos dias em que não sentimos entusiasmo.
Perseverança é continuar obedecendo quando a novidade desapareceu. Continuar orando. Continuar servindo. Continuar confiando. Continuar caminhando.
Piedade
Novamente aparece a palavra central de nosso versículo. Nossa vida começa cada vez mais a refletir reverência e submissão a Deus.
Fraternidade
Maturidade espiritual aparece também na maneira como tratamos nossos irmãos. Uma pessoa pode possuir grande conhecimento bíblico e ainda ser difícil de conviver.
Pedro não separa crescimento espiritual de relacionamento.
Amor
A sequência termina no amor. Isso é significativo. O objetivo da maturidade cristã não é transformar-nos em pessoas impressionantes.
É tornar-nos cada vez mais semelhantes a Cristo. E Cristo ama.
Não precisamos buscar atalhos espirituais
Talvez uma das principais aplicações de 2 Pedro 1:3 seja esta: não existe atalho para maturidade cristã.
Não existe uma experiência instantânea que substitua: anos de oração, estudo da Palavra, arrependimento, obediência, comunhão, serviço, perseverança.
Deus pode transformar uma pessoa profundamente em um momento. Mas normalmente o caráter cristão é formado ao longo da caminhada. Dia após dia. Decisão após decisão.
Cuidado com quem vende aquilo que Deus dá gratuitamente
Essa aplicação também merece ser feita. Ao longo da história, pessoas transformaram a espiritualidade em mercado. Promessas de bênçãos em troca de dinheiro. Objetos supostamente ungidos. Acesso especial a determinadas experiências. Campanhas apresentadas como condições para receber algo de Deus.
Precisamos de discernimento. Pedro afirma que Deus doou aquilo que conduz à vida e à piedade. O Evangelho não está à venda. A graça não possui tabela de preços.
Isso não elimina a generosidade cristã
É importante não confundir as coisas. A Bíblia ensina generosidade. Ensina ofertas. Ensina sustento da obra. Ensina cuidado com necessitados. O problema não está em contribuir.
O problema surge quando transformamos contribuição em transação espiritual: “Dê para obrigar Deus a dar.” “Pague para receber uma bênção.” “Contribua para liberar determinada promessa.”
Isso distorce a graça. Nós ofertamos por gratidão, não para comprar o favor de Deus.
Você já possui Cristo
Talvez alguém leia este artigo sentindo-se espiritualmente inferior. Olha para outras pessoas e pensa: “Elas parecem possuir algo que eu não tenho.”
Se você pertence verdadeiramente a Cristo, lembre-se: Seu maior tesouro não é uma experiência. Não é um título. Não é um dom extraordinário. Não é a aprovação de algum líder. Seu maior tesouro é Cristo.
Paulo escreve:
“...Cristo em vós, a esperança da glória.” — Colossenses 1:27 (ARA)
Não permita que alguém faça você pensar que Cristo é insuficiente.
Ainda precisamos crescer
Mas também não use essa verdade como desculpa para acomodação.
Pedro não diz: “Vocês receberam tudo, portanto não façam nada.”
Ele diz: “Vocês receberam tudo, portanto cresçam.”
Existe uma enorme diferença. A suficiência de Cristo não produz preguiça espiritual. Produz segurança para avançar.
Não crescemos tentando conquistar aquilo que Deus se recusa a nos dar. Crescemos utilizando fielmente aquilo que Ele já colocou à nossa disposição.
Aplicação para nossa vida
2 Pedro 1:3 nos convida a algumas perguntas:
Tenho vivido como se Cristo fosse suficiente?
Estou sempre procurando alguma novidade espiritual porque considero a vida cristã simples demais?
Minha fé está fundamentada nas Escrituras ou excessivamente dependente de experiências?
Tenho confundido desejos pessoais com promessas de Deus?
Estou crescendo em piedade ou apenas acumulando conhecimento?
Minha teologia está produzindo transformação de caráter?
Tenho utilizado os meios que Deus concedeu para meu crescimento: Palavra, oração e comunhão?
Existe algum pecado que continuo alimentando enquanto peço crescimento espiritual?
Tenho procurado atalhos para uma maturidade que exige perseverança?
Estou permitindo que alguém ocupe um lugar de mediação espiritual que pertence somente a Cristo?
Minha vida busca principalmente as bênçãos de Deus ou a glória de Deus?
Estou crescendo em fé, virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade e amor?
Essas perguntas ajudam a trazer o texto para nossa caminhada diária.
Pare de procurar o que Deus nunca disse que estava faltando
Talvez essa seja uma aplicação particularmente necessária. Às vezes passamos tanto tempo procurando uma experiência que imaginamos estar faltando que negligenciamos aquilo que Deus já nos entregou.
Temos uma Bíblia fechada e procuramos uma “nova palavra”. Temos acesso à oração e procuramos um intermediário especial. Temos Cristo e procuramos alguém que prometa completar aquilo que imaginamos faltar. Temos o Espírito Santo e procuramos fórmulas.
Pedro nos chama novamente ao fundamento: Deus já nos concedeu tudo aquilo que conduz à vida e à piedade.
Abra a Palavra. Ore. Obedeça. Arrependa-se. Sirva. Ame. Persevere. Conheça Cristo.
A suficiência de Cristo produz descanso
Existe um descanso maravilhoso nessa verdade. Não precisamos viver espiritualmente ansiosos. Não precisamos pensar: “Talvez Deus tenha dado algo importante para outros e esquecido de mim.”
Deus não esqueceu Seus filhos. Talvez você não possua os mesmos dons de outra pessoa. Talvez não tenha as mesmas oportunidades. Talvez sua caminhada seja diferente.
Mas aquilo que você realmente necessita para viver diante de Deus foi providenciado em Cristo.
A suficiência também produz responsabilidade
Ao mesmo tempo, essa verdade elimina algumas desculpas.
Não podemos dizer: “Não consigo crescer porque Deus não me deu os recursos.”
Ele nos deu Sua Palavra. Seu Espírito. Acesso à oração. Comunhão com outros cristãos. Promessas. Graça. E acima de tudo: Cristo.
Portanto, podemos crescer. Não perfeitamente. Não instantaneamente. Mas verdadeiramente.
Conclusão
2 Pedro 1:3 apresenta uma das declarações mais consoladoras e, ao mesmo tempo, desafiadoras da vida cristã:
“Visto como, pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude.”
Tudo começa em Deus. Seu poder.
Tudo chega até nós pela graça. Foi doado.
Tudo possui um objetivo. Vida e piedade.
Tudo está centrado em uma Pessoa. Cristo.
E tudo termina em um propósito maior. A glória de Deus.
Não precisamos passar nossa caminhada cristã correndo atrás de segredos espirituais. Não precisamos procurar um Cristo “mais completo”. Não precisamos depender de alguém que afirme possuir aquilo que Deus supostamente ainda não nos deu.
Precisamos conhecer mais profundamente aquele que já recebemos. Jesus Cristo.
Isso não significa acomodação. Pedro imediatamente nos chama ao crescimento, fé, virtude, conhecimento, domínio próprio, perseverança, piedade, fraternidade, amor.
Existe muito a desenvolver. Muito a aprender. Muito pecado para abandonar. Muito caráter para ser formado. Mas crescemos a partir da suficiência de Cristo, não tentando preencher alguma deficiência nEle.
Por isso, quando alguém disser que falta uma “chave espiritual”, uma “unção especial”, um segredo ou alguma experiência indispensável para finalmente vivermos uma vida cristã completa, voltemos à Palavra: “Pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade.”
Nossa esperança não está em descobrir uma novidade espiritual. Está em conhecer cada vez mais profundamente aquele que nunca deixou de ser suficiente.
“...pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade...” — 2 Pedro 1:3 (ARA)
Em Cristo, Deus não nos deixou procurando aquilo que falta; Ele nos deu tudo aquilo de que precisamos para conhecê-Lo, crescer em piedade e viver para Sua glória.
Fernando Paulo Ferreira (Fefo).
Excelente estudo Fernando, obrigado por compartilhar. Que todos possamos refletir aos questionamentos propostos por 2 Pedro 1:3. Deus continua abençoando sua vida cada dia mais e mais. Amém.
ResponderExcluir