Sejam Agradáveis as Palavras da Minha Boca e o Meditar do Meu Coração


Reflexão Expositiva sobre Salmo 19:14

“As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu!” — Salmo 19:14 (ARA)

Há orações que pedem que Deus mude as circunstâncias. Há outras que pedem que Deus mude a nós.

Salmo 19:14 pertence à segunda categoria.

Davi não termina esse salmo pedindo prosperidade, livramento de inimigos, reconhecimento ou uma vida sem dificuldades. Depois de contemplar a glória de Deus na criação, reconhecer a perfeição da Palavra e perceber a profundidade do próprio pecado, ele chega diante do Senhor com uma oração profundamente pessoal:

“Que aquilo que eu digo e aquilo que acontece dentro de mim seja agradável a ti.”

É uma oração que alcança duas regiões que frequentemente tentamos separar: a boca e o coração.

Aquilo que os outros conseguem ouvir e aquilo que somente Deus consegue ver. O comportamento exterior e o mundo interior. As palavras pronunciadas e os pensamentos silenciosos.

Davi deseja que ambos estejam diante de Deus. Mas para compreendermos a profundidade dessa oração, não podemos começar apenas no versículo 14.

Precisamos caminhar pelo salmo inteiro.

Porque Salmo 19:14 não é uma frase isolada sobre falar coisas bonitas. É a conclusão de uma jornada que começa olhando para os céus, passa pela Palavra de Deus e termina dentro do coração humano.


Um salmo que começa olhando para o céu

O Salmo 19 começa com uma das declarações mais conhecidas das Escrituras:

“Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos.” — Salmo 19:1

Antes de Davi olhar para dentro de si, ele olha para cima. O céu está proclamando alguma coisa. A criação testemunha sobre seu Criador. O universo não é apresentado como silencioso no sentido espiritual. Ele comunica.

O movimento dos céus, a ordem da criação, a grandeza do firmamento e o percurso do sol apontam para uma realidade maior do que eles próprios.

Existe um Criador. Existe poder. Existe sabedoria. Existe glória.

Davi olha para aquilo que foi criado e percebe que a criação está constantemente apontando para Deus.


Uma pregação sem palavras

Davi continua:

“Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite. Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som.” — Salmo 19:2-3

Existe aqui uma imagem belíssima. A criação não possui voz humana. Não prega um sermão audível. Não escreve livros. Não pronuncia frases. E mesmo assim comunica.

Dia após dia. Noite após noite. Geração após geração. Os céus continuam anunciando que existe algo além deles.

Paulo desenvolve ideia semelhante em Romanos:

“Porque os atributos invisíveis de Deus [...] claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas.” — Romanos 1:20

A criação revela algo verdadeiro sobre Deus. Mas ela não revela tudo aquilo que precisamos saber.

O céu pode mostrar que existe um Criador poderoso. Mas não nos explica plenamente como pecadores podem ser reconciliados com esse Criador.

Para isso precisamos de outra revelação. E é exatamente para onde Davi se dirige.


Dos céus para as Escrituras

No versículo 7 acontece uma mudança importante.

Davi deixa de falar predominantemente da criação e começa a falar da Palavra:

“A lei do Senhor é perfeita e restaura a alma.” — Salmo 19:7

O Deus que se revela por meio da criação também decidiu falar por meio de Sua Palavra. A criação aponta para Sua glória. A Palavra revela Sua vontade.

Davi utiliza diferentes expressões: lei do Senhor, testemunho do Senhor, preceitos do Senhor, mandamento do Senhor, temor do Senhor, juízos do Senhor.

Não são necessariamente seis coisas completamente separadas. São diferentes maneiras de contemplar a riqueza da revelação divina.

E observe como Davi descreve aquilo que a Palavra faz. Ela restaura a alma. Dá sabedoria aos simples. Alegra o coração. Ilumina os olhos. Permanece para sempre. É verdadeira e justa.

A Palavra não é apresentada apenas como um conjunto de informações religiosas. Ela alcança a vida.


Antes de pedir que minhas palavras agradem a Deus, preciso ouvir as palavras de Deus

Essa sequência é fundamental para entendermos o versículo 14.

Davi não começa dizendo: “Senhor, que minhas palavras sejam agradáveis.”

Primeiro ele contempla aquilo que Deus falou. Somente depois examina aquilo que ele próprio fala.

Isso nos ensina uma ordem importante: Nossa boca precisa ser formada pela Palavra de Deus.

Se desejamos falar de maneira agradável ao Senhor, precisamos permitir que aquilo que Ele disse transforme aquilo que nós dizemos.

Uma vida cristã saudável não começa com: “O que eu penso?” Começa perguntando: “O que Deus revelou?”

Nossa opinião precisa ser colocada debaixo da Palavra. Nossos sentimentos precisam ser examinados pela Palavra. Nossas convicções precisam ser corrigidas pela Palavra. Até nossa maneira de falar precisa ser moldada pela Palavra.


Mais desejável do que ouro

Davi prossegue:

“São mais desejáveis do que ouro, mais do que muito ouro depurado; e são mais doces do que o mel e o destilar dos favos.” — Salmo 19:10

Aqui surge uma pergunta desconfortável: Quanto realmente valorizamos a Palavra de Deus?

Davi utiliza duas imagens poderosas. Ouro representa valor. Mel representa prazer. A Palavra é preciosa e agradável. Não deveria ser procurada apenas por obrigação. Existe riqueza nela. Existe alimento nela. Existe sabedoria nela. Existe prazer espiritual nela.

Talvez possuamos acesso às Escrituras como poucas gerações tiveram. Bíblias impressas. Aplicativos. Sites. Áudios. Comentários. Estudos. Diferentes traduções.

Mas facilidade de acesso não significa necessariamente profundidade de relacionamento. Podemos carregar a Bíblia no bolso e ainda permitir que outras vozes ocupem nossa mente durante quase todo o dia.


A Palavra também adverte

Davi acrescenta:

“Além disso, por eles se admoesta o teu servo; em os guardar, há grande recompensa.” — Salmo 19:11

A Palavra não existe apenas para nos consolar. Ela também nos corrige. Isso é importante.

Queremos versículos que nos abracem, mas precisamos também daqueles que nos confrontem. Queremos promessas, mas precisamos de mandamentos. Queremos encorajamento, mas precisamos de advertência.

Uma Bíblia que apenas confirma tudo aquilo que já pensamos deixou de funcionar como autoridade e passou a funcionar como espelho das nossas próprias preferências.

Se Deus fala, precisamos estar dispostos não apenas a ouvir aquilo que nos agrada, mas também aquilo que nos corrige.


A revelação de Deus produz consciência do pecado

É nesse ponto que o Salmo 19 se torna ainda mais pessoal.

Depois de olhar para os céus e depois de contemplar a Palavra, Davi começa a olhar para dentro:

“Quem há que possa discernir as próprias faltas? Absolve-me das que me são ocultas.” — Salmo 19:12

Observe a progressão do salmo.

Primeiro: os céus.

Depois: as Escrituras.

Agora: o coração.

Quanto mais Davi contempla a santidade e a revelação de Deus, mais percebe que não conhece completamente nem a si mesmo.

Ele pergunta: “Quem há que possa discernir as próprias faltas?”

Essa pergunta destrói a autoconfiança espiritual.


Existem pecados que enxergamos e pecados que ainda não enxergamos

Davi reconhece algo que precisamos reconhecer: podemos estar errados sem perceber que estamos errados.

Existem pecados conscientes. Sabemos exatamente o que fizemos. Mas existem também motivações, atitudes, padrões e disposições interiores que ainda não conseguimos enxergar claramente.

Podemos chamar orgulho de convicção. Inveja de senso de justiça. Controle de cuidado. Covardia de prudência. Grosseria de sinceridade. Egoísmo de autocuidado. Desejo de reconhecimento de “zelo pelo ministério”.

Nosso coração possui extraordinária capacidade de criar explicações nobres para motivações nem sempre nobres.

Por isso Davi não diz: “Senhor, eu conheço perfeitamente meu coração.”

Ele pede: “Absolve-me das que me são ocultas.”

Essa é uma oração de humildade.


Nem todo autoexame é suficiente

Vivemos em uma época que valoriza muito o autoconhecimento. Há aspectos positivos nisso.

É importante compreender emoções, padrões de comportamento, limitações e motivações. Mas existe um limite.

Não somos observadores completamente neutros de nós mesmos. Podemos justificar aquilo que deveríamos confessar. Podemos minimizar aquilo que deveríamos enfrentar. Podemos exagerar culpas que Deus já perdoou e ignorar pecados que deveríamos abandonar.

Por isso precisamos de algo fora de nós. Precisamos da Palavra.

“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz [...] e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” — Hebreus 4:12

A Escritura não serve apenas para conhecermos Deus. Ela também nos ajuda a enxergar a nós mesmos diante de Deus.


“Também da soberba guarda o teu servo”

Davi continua:

“Também da soberba guarda o teu servo, que ela não me domine.” — Salmo 19:13

Aqui ele passa dos pecados ocultos para uma preocupação com pecados deliberados e dominadores.

Ele sabe que pecado tolerado pode ganhar espaço. Aquilo que hoje parece pequeno pode amanhã exercer domínio.

Por isso sua oração não é apenas: “Perdoa-me quando eu pecar.”

É também: “Guarda-me.”

Isso é maturidade espiritual. Não apenas buscar perdão depois da queda, mas pedir proteção antes dela.


Não devemos brincar com aquilo que pode nos dominar

Há hábitos que começam pequenos. Uma concessão. Uma justificativa. Uma repetição. Depois outra. E aquilo que inicialmente parecia sob controle começa a controlar.

Paulo escreve:

“Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas.” — 1 Coríntios 6:12

A pergunta cristã não deveria ser apenas: “Isso é permitido?”

Às vezes precisamos perguntar: “Isso está começando a me dominar?”

Davi entende o perigo. Por isso pede ajuda.


Então chegamos ao versículo 14

Depois de toda essa caminhada, Davi ora:

“As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu!”

Agora conseguimos perceber a profundidade dessa oração. Ela não apareceu do nada.

Davi contemplou: a glória de Deus na criação, a perfeição de Deus em Sua Palavra, a realidade do pecado dentro de si.

Então ele responde: “Senhor, que minha vida interior e exterior seja agradável diante de ti.”


“As palavras dos meus lábios”

Palavras revelam muito sobre nós.

Jesus disse:

“Porque a boca fala do que está cheio o coração.” — Mateus 12:34

Nossa fala frequentemente funciona como uma janela. Raiva aparece em palavras. Orgulho aparece em palavras. Inveja aparece em palavras. Medo aparece em palavras. Amor aparece em palavras. Graça aparece em palavras. Sabedoria aparece em palavras.

Aquilo que carregamos dentro de nós encontra caminhos para sair pela boca. Por isso Davi não trata palavras como algo insignificante.


Palavras podem construir ou destruir

Provérbios declara:

“A morte e a vida estão no poder da língua.” — Provérbios 18:21

Uma frase pode permanecer na memória de alguém durante anos.

Existem pessoas adultas que ainda carregam palavras pronunciadas contra elas na infância. “Você nunca será nada.” “Você é um problema.” “Você não consegue.” “Eu me arrependo de você.”

Mas o contrário também acontece.

Uma palavra de encorajamento pronunciada no momento certo pode acompanhar alguém por décadas. “Eu acredito em você.” “Continue.” “Você não está sozinho.” “Eu perdoo você.” “Obrigado.” “Eu amo você.”

Nossas palavras possuem consequências.


A pergunta não é apenas: “É verdade?”

Às vezes justificamos dureza dizendo: “Mas eu apenas falei a verdade.”

Entretanto, a Bíblia exige mais do que conteúdo verdadeiro.

Paulo ensina:

“Seguindo a verdade em amor...” — Efésios 4:15

Algo pode ser verdadeiro e ainda ser dito na hora errada, da maneira errada ou pela motivação errada.

A pergunta cristã não é somente: “Isso é verdade?”

Também precisamos perguntar: “Precisa ser dito?” “Precisa ser dito agora?” “Precisa ser dito por mim?” “Estou dizendo para ajudar ou para ferir?” “Minha maneira de falar corresponde ao caráter de Cristo?”


Palavras agradáveis a Deus nem sempre agradarão às pessoas

Também precisamos evitar outro extremo.

“Agradáveis na tua presença” não significa dizer apenas coisas agradáveis aos ouvidos humanos. Às vezes a verdade confronta.

Jesus pronunciou palavras duras quando necessário. Os profetas denunciaram pecado. Paulo corrigiu igrejas. Uma palavra pode desagradar alguém e ainda assim ser agradável a Deus.

Portanto, o padrão não é: “Todo mundo gostou do que eu disse?”

O padrão é: “Aquilo que eu disse foi verdadeiro, necessário e pronunciado de maneira coerente com o amor e a santidade de Deus?”

Isso nos protege tanto da grosseria quanto da necessidade de aprovação.


Nossa fala nas redes sociais também está diante de Deus

Salmo 19:14 foi escrito milhares de anos antes da internet. Mas o princípio continua perfeitamente aplicável.

Hoje nossas “palavras” também aparecem em: comentários, mensagens, legendas, publicações, grupos, áudios, respostas, compartilhamentos.

O fato de uma frase ser digitada em vez de pronunciada não a torna espiritualmente neutra.

Talvez devêssemos orar antes de algumas publicações: “Senhor, isto que estou prestes a escrever é agradável na tua presença?”

Essa pergunta poderia evitar muitas discussões desnecessárias.


Nem tudo que pensamos precisa ser publicado

A tecnologia tornou possível reagir imediatamente. Sentimos raiva. Digitamos. publicamos. Depois pensamos.

Talvez a ordem devesse ser diferente. Pensar. Orar. Examinar. Esperar. Então, se ainda for necessário, falar.

Tiago aconselha:

“Todo homem, pois, seja pronto para ouvir, tardio para falar, tardio para se irar.” — Tiago 1:19

“Tardio para falar” tornou-se ainda mais importante em uma época na qual podemos falar para centenas de pessoas em poucos segundos.


“E o meditar do meu coração”

Davi não para na boca. Ele vai à fonte. O coração.

Podemos controlar palavras por algum tempo sem transformar aquilo que acontece dentro de nós. Podemos sorrir enquanto alimentamos ressentimento. Podemos elogiar enquanto sentimos inveja. Podemos permanecer em silêncio enquanto interiormente destruímos alguém. Podemos parecer tranquilos enquanto cultivamos fantasias de vingança.

Davi deseja algo mais profundo do que comportamento socialmente aceitável. Ele quer que o meditar do coração também agrade a Deus.


Deus ouve aquilo que ninguém mais ouve

Essa verdade é desconfortável e consoladora ao mesmo tempo.

Outras pessoas conhecem aquilo que mostramos. Deus conhece aquilo que pensamos. Ele conhece conversas que nunca aconteceram fora da nossa mente. Conhece medos. Ressentimentos. Desejos. Intenções. Perguntas. Lutas.

E também conhece orações que não conseguimos colocar em palavras. Nada no mundo interior está escondido dele.

Por isso espiritualidade bíblica nunca pode ser apenas aparência.


Não basta controlar a boca se alimentamos o coração

Talvez consigamos evitar uma resposta agressiva. Isso pode ser bom. Mas se passarmos os próximos três dias imaginando discussões e alimentando ressentimento, o problema ainda está presente.

Jesus leva a santidade para dentro.

No Sermão do Monte, Ele mostra que o problema do homicídio começa na ira e que o adultério possui raízes no desejo.

Deus não está interessado apenas em administrar sintomas. Ele transforma fontes.


Aquilo que alimentamos tende a ocupar nossa meditação

Isso nos leva a uma aplicação muito prática.

O que ocupa nossa mente durante o dia? Notícias? Medos? Discussões? Comparações? Ressentimentos? Conteúdo sexual? Ambição? Preocupação? A Palavra?

Paulo aconselha:

“Tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro [...] seja isso o que ocupe o vosso pensamento.” — Filipenses 4:8

Não controlamos cada pensamento que aparece. Pensamentos indesejados podem surgir. Tentação pode aparecer. Uma lembrança pode voltar.

Mas existe diferença entre um pensamento entrar e oferecermos residência a ele.


Nem todo pensamento é uma convicção

Isso também merece cuidado.

Algumas pessoas sofrem porque imaginam que qualquer pensamento involuntário representa aquilo que realmente desejam. Não necessariamente.

Pensamentos podem surgir sem convite. Tentação não é a mesma coisa que consentimento. Uma imagem mental não define automaticamente nosso caráter.

A questão é o que fazemos quando determinados pensamentos aparecem. Alimentamos? Cultivamos? Retornamos deliberadamente? Ou os levamos diante de Deus e direcionamos nossa mente para aquilo que é verdadeiro?

Davi não pede uma mente onde jamais apareça qualquer luta. Ele deseja que sua meditação, aquilo que é acolhido e cultivado interiormente, agrade ao Senhor.


O coração e a boca estão conectados

Agora percebemos por que Davi menciona ambos.

Se trabalharmos apenas a boca, produziremos comportamento externo. Se Deus transformar o coração, a mudança começará a alcançar também a boca.

Jesus ensinou:

“O homem bom tira do tesouro bom coisas boas.” — Mateus 12:35

Isso não significa perfeição instantânea. Cristãos ainda tropeçam em palavras.

Tiago reconhece:

“Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça no falar, é perfeito varão.” — Tiago 3:2

Precisamos de graça diariamente.


“Sejam agradáveis na tua presença”

Aqui está o verdadeiro público de Davi. Deus.

Ele não pergunta primeiramente se suas palavras agradarão às pessoas. Nem se seus pensamentos parecerão aceitáveis diante da cultura. Ele quer ser agradável na presença do Senhor.

Isso muda tudo.

Porque podemos enganar pessoas. Podemos construir reputação. Podemos parecer piedosos. Podemos selecionar cuidadosamente aquilo que mostramos.

Mas não conseguimos editar nossa vida diante de Deus. Ele vê tudo.


Viver diante de Deus nos liberta da representação

Essa verdade poderia produzir apenas medo. Mas para quem conhece a graça, também produz liberdade. Não precisamos manter uma personagem diante de Deus.

Podemos confessar: “Senhor, estou com inveja.” “Estou ressentido.” “Estou com medo.” “Estou desejando reconhecimento.” “Estou pensando coisas que não deveria alimentar.” “Minha motivação não está limpa.”

Deus já sabe. Confissão não informa Deus. Confissão significa parar de esconder de nós mesmos aquilo que Deus já conhece.


“Senhor, rocha minha”

Davi encerra chamando Deus de: “rocha minha”.

Isso é importante.

Depois de reconhecer pecados ocultos, perigos de pecados dominadores, palavras inadequadas e meditações interiores, Davi não termina olhando para sua própria capacidade de melhorar.

Ele olha para Deus. Rocha. Estabilidade. Segurança. Fundamento.

Davi sabe que sua esperança não pode estar em sua própria perfeição.


Aquele que examina o coração também é nossa rocha

Essa é uma verdade preciosa.

O Deus diante de quem Davi deseja ser agradável é também o Deus em quem ele encontra segurança.

Santidade bíblica não significa viver aterrorizado, tentando desesperadamente conquistar aceitação. É responder à graça de Deus com uma vida que deseja agradá-lo.

Nossa segurança não está em conseguir passar um dia inteiro sem falhar. Está naquele que permanece firme quando percebemos nossa fraqueza.


“E redentor meu”

A última expressão do salmo é ainda mais significativa: “redentor meu.”

Davi sabe que precisa de mais do que instrução. Precisa de redenção.

A criação pode revelar glória. A Lei pode revelar a vontade de Deus. A Palavra pode expor o pecado. Mas o pecador precisa ser resgatado.

E aqui encontramos uma ponte poderosa para Cristo.


A Palavra revela; Cristo redime

O Evangelho não diz simplesmente: “Controle melhor suas palavras e organize seus pensamentos.”

Se fosse apenas isso, teríamos um programa de aperfeiçoamento moral. Nossa necessidade é mais profunda. Precisamos de um novo coração. Precisamos de perdão. Precisamos de redenção.

E aquilo que Davi chama de “redentor meu” encontra seu cumprimento pleno na obra de Cristo.

Pedro escreve:

“Sabendo que não foi mediante coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados [...] mas pelo precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula, o sangue de Cristo.” — 1 Pedro 1:18-19

Cristo não veio apenas melhorar nosso vocabulário. Veio redimir pecadores.


Jesus é a Palavra que veio até nós

Existe ainda uma bela conexão.

Salmo 19 celebra a revelação de Deus. No Novo Testamento, João apresenta Cristo dizendo:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós.” — João 1:14

O Deus cuja glória é anunciada pelos céus não permaneceu distante. Ele veio até nós em Cristo.

Jesus viveu em perfeita obediência. Suas palavras foram perfeitamente agradáveis ao Pai. Seu coração foi perfeitamente santo. E então, na cruz, Ele tomou sobre si a culpa de pecadores que nunca conseguiram alcançar essa perfeição.


Nossa aceitação diante de Deus não depende de palavras perfeitas

Isso precisa ficar muito claro.

Salmo 19:14 não deve se transformar em: “Se eu conseguir falar e pensar perfeitamente, Deus finalmente me aceitará.”

Esse não é o Evangelho. Somos aceitos diante de Deus por causa de Cristo. Nossa obediência é resposta à graça, não preço para comprá-la.

Buscamos palavras e pensamentos agradáveis ao Senhor porque pertencemos a Ele, não para convencê-lo a nos adotar.

Essa diferença separa Evangelho de legalismo.


Quando falhamos com nossas palavras

E falharemos.

Talvez você tenha dito algo que não deveria. Ferido alguém. Respondido com raiva. Espalhado algo. Mentido. Exagerado. Participado de uma conversa destrutiva.

O que fazer?

Primeiro: não justifique. Confesse. Depois, quando necessário: peça perdão à pessoa.

Talvez seja preciso corrigir uma informação. Talvez reparar algum dano. Talvez admitir: “Eu estava errado.”

Graça não elimina responsabilidade. Ela nos dá liberdade para parar de defender nosso pecado.


Quando o problema está no coração

Talvez nenhuma palavra tenha sido pronunciada. Mas você percebe que algo está crescendo dentro. Ressentimento. Inveja. Amargura. Desejo de vingança. Orgulho. Luxúria. Medo.

Não espere necessariamente que aquilo chegue à boca ou às ações. Leve a Deus enquanto ainda está sendo cultivado no coração.

Ore como Davi. Peça que Deus examine. Confronte. Limpe. Redirecione.


Uma oração para antes de falar

Talvez Salmo 19:14 possa se tornar uma oração diária.

Antes de uma conversa difícil. Antes de uma reunião. Antes de responder uma mensagem. Antes de publicar. Antes de ensinar. Antes de aconselhar. Antes de corrigir alguém. Antes de entrar em uma discussão.

“Senhor, que minhas palavras e meu coração sejam agradáveis diante de ti.”

Imagine quantas conversas seriam diferentes se fizéssemos isso sinceramente.


Uma oração para depois de falar

E às vezes precisaremos orar depois: “Senhor, aquilo que eu disse não foi agradável. Perdoa-me e mostra-me como reparar.”

Humildade não é nunca errar. Humildade também aparece na disposição de reconhecer rapidamente quando erramos.

Uma das frases mais espiritualmente maduras que podemos aprender é: “Eu estava errado. Por favor, me perdoe.”


Perguntas para examinar o coração

Salmo 19 nos conduz naturalmente ao autoexame.

Tenho contemplado a criação apenas como cenário ou também como testemunho da glória de Deus?

Que lugar a Palavra realmente ocupa em minha rotina?

Desejo a Escritura ou apenas a consulto quando preciso de alguma resposta?

Permito que a Bíblia me corrija ou procuro nela apenas confirmação para aquilo que já penso?

Tenho pedido a Deus que revele pecados que ainda não consigo enxergar?

Existe algum hábito que está começando a me dominar?

Minhas palavras costumam construir ou ferir?

Uso “sinceridade” como desculpa para grosseria?

Tenho falado sobre pessoas aquilo que não falaria diante delas?

Minha maneira de escrever nas redes sociais é coerente com minha fé?

Existem mensagens que eu deveria esperar antes de enviar?

O que ocupa minha mente quando ninguém está observando?

Tenho alimentado ressentimentos interiormente?

Existe inveja escondida atrás de alguma crítica?

Procuro parecer correto diante das pessoas ou realmente ser transformado diante de Deus?

Quando erro com minhas palavras, consigo pedir perdão?

Minha esperança está na minha capacidade de me corrigir ou em Cristo, meu Redentor?

E talvez a pergunta que reúne todas:

Se Deus examinasse hoje aquilo que tenho falado e aquilo que tenho cultivado em meu coração, o que Ele encontraria?


Uma oração

Senhor, os céus proclamam tua glória e tua Palavra revela tua vontade. Diante de ti reconheço que nem sempre consigo discernir completamente meu próprio coração.

Mostra-me aquilo que preciso enxergar. Perdoa meus pecados conscientes e também aqueles que tenho dificuldade de perceber. Guarda-me de permitir que qualquer pecado encontre espaço para dominar minha vida.

Coloca tua Palavra profundamente em meu coração para que ela transforme também minhas palavras. Dá-me sabedoria para saber quando falar e quando permanecer em silêncio; coragem para dizer a verdade quando necessário e amor para dizê-la da maneira correta.

Guarda minha boca da mentira, da maledicência, da arrogância, da crueldade e das palavras pronunciadas apenas pela ira. E guarda meu coração daquilo que ninguém vê: ressentimentos, inveja, orgulho, desejos pecaminosos e pensamentos que não devo alimentar.

Que aquilo que eu disser, escrever, publicar e compartilhar seja colocado primeiro diante de ti.

Quando eu falhar, dá-me humildade para confessar, pedir perdão e reparar aquilo que puder. Não permita que eu transforme esta oração em tentativa de merecer teu amor. Minha esperança está em Cristo, meu Redentor.

Transforma-me de dentro para fora, para que minhas palavras sejam cada vez mais fruto de um coração alcançado por tua graça.

Que as palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu.

Em nome de Jesus. Amém.


Dos céus ao coração

Salmo 19 percorre uma trajetória extraordinária.

Davi começa olhando para cima: “Os céus proclamam a glória de Deus.”

Depois olha para a Palavra: “A lei do Senhor é perfeita.”

Então olha para dentro: “Quem há que possa discernir as próprias faltas?”

E finalmente olha novamente para Deus: “Senhor, rocha minha e redentor meu.”

Essa sequência nos ensina algo fundamental. Quanto mais verdadeiramente conhecemos Deus, menos interessados ficamos em apenas parecer espirituais.

Queremos transformação real. Não apenas uma boca religiosa. Mas um coração transformado.

Não apenas palavras corretas diante das pessoas. Mas pensamentos examinados diante de Deus.

Não apenas reputação. Mas caráter.


A criação diz: Deus é glorioso.

A Palavra diz: Deus falou.

A consciência iluminada pela Palavra diz: Eu preciso de graça.

E o coração alcançado pela redenção responde: “Que minha vida seja agradável a ti.”

Talvez por isso o Salmo 19 termine não com autoconfiança, mas com dependência.

Davi não diz: “Agora conseguirei controlar perfeitamente minha boca e meu coração.”

Ele ora. Porque sabe que precisa de Deus. E termina chamando-o de duas coisas que precisamos desesperadamente: 

Rocha. Porque precisamos de alguém mais firme do que nós.

Redentor. Porque precisamos de alguém capaz de fazer por nós aquilo que não conseguimos fazer por nós mesmos.

Em Cristo encontramos ambos.

Por isso Salmo 19:14 pode ser muito mais do que um versículo bonito para memorizar.

Pode se tornar uma oração para cada manhã, cada conversa, cada decisão, cada publicação e cada momento em que percebemos aquilo que está acontecendo dentro de nós:

“As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor, rocha minha e redentor meu!” — Salmo 19:14

Antes de pedir que Deus mude aquilo que está ao nosso redor, talvez precisemos pedir que Sua Palavra continue mudando aquilo que acontece dentro de nós. Porque o Deus que vê nossas palavras também conhece nosso coração — e o Deus que nos conhece completamente é também nossa Rocha e nosso Redentor.

Fernando Paulo Ferreira (Fefo)

Blog do Fefo — Estudo, Reflexão e Palavra.

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