O Fruto do Espírito: Quando Cristo Transforma o Nosso Caráter


Reflexão Expositiva sobre Gálatas 5:22-23

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.” — Gálatas 5:22-23 (ARA)

Como podemos saber se estamos realmente crescendo espiritualmente?

Essa pergunta pode receber respostas muito diferentes dentro do ambiente cristão. Alguns poderiam apontar para conhecimento bíblico. Outros, para dons espirituais. Outros, para experiências extraordinárias. Outros ainda poderiam mencionar tempo de igreja, participação em ministérios, capacidade de ensinar ou intensidade emocional durante um culto.

Todas essas coisas podem possuir seu lugar.

Mas Paulo, escrevendo aos gálatas, aponta para algo que talvez seja menos espetacular e, ao mesmo tempo, muito mais difícil de falsificar: o caráter.

Amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio.

Paulo chama essas características de: “o fruto do Espírito”.

Não são simplesmente comportamentos que devemos acrescentar externamente à nossa personalidade. São evidências da obra que o Espírito Santo realiza na vida daqueles que pertencem a Cristo.

E talvez exista aqui uma das perguntas mais importantes para nossa caminhada: Se alguém observasse minha vida durante algum tempo, encontraria nela evidências do fruto do Espírito?


O contexto da carta aos Gálatas

Para compreender Gálatas 5:22-23, precisamos lembrar o problema enfrentado por Paulo nessa carta.

As igrejas da Galácia estavam sendo influenciadas por pessoas que ensinavam que a fé em Cristo não era suficiente. Os cristãos gentios precisariam também assumir determinadas práticas da Lei de Moisés, especialmente a circuncisão, para pertencer plenamente ao povo de Deus.

Paulo reage vigorosamente. Logo no início da carta, escreve:

“Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho.” — Gálatas 1:6 (ARA)

O problema era sério porque atingia o coração do Evangelho. Somos justificados diante de Deus pelas obras da Lei? Ou pela fé em Cristo?

Paulo responde claramente:

“...sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus...” — Gálatas 2:16 (ARA)

A salvação não é uma recompensa por desempenho religioso. É graça. Mas isso levanta outra questão.

Se não somos salvos pelas obras da Lei, então podemos viver de qualquer maneira? A resposta de Paulo também é clara: não.

A graça nos liberta da tentativa de conquistar a salvação pelas obras, mas não nos liberta para sermos escravos do pecado.

É justamente aqui que entramos em Gálatas 5.


“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou”

O capítulo começa com uma declaração extraordinária:

“Para a liberdade foi que Cristo nos libertou.” — Gálatas 5:1 (ARA)

Cristo nos libertou. Mas precisamos compreender corretamente essa liberdade. Liberdade cristã não significa: “Agora posso fazer tudo aquilo que desejo.”

Pouco depois, Paulo explica:

“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor.” — Gálatas 5:13 (ARA)

Observe o paradoxo: Cristo nos torna livres para que possamos servir.

A verdadeira liberdade não é poder obedecer a todos os nossos desejos. É não precisar mais ser governado por eles.


A batalha entre a carne e o Espírito

Antes de apresentar o fruto do Espírito, Paulo descreve um conflito:

“Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si...” — Gálatas 5:17 (ARA)

A vida cristã possui batalha. A conversão não significa que todas as tentações desaparecem imediatamente. Existe uma luta entre os desejos da carne e a direção do Espírito.

Aqui, “carne” não significa simplesmente o corpo físico. Paulo utiliza o termo para descrever nossa natureza humana caída quando procura viver independentemente de Deus.

É a inclinação pecaminosa que deseja ocupar o centro.


A presença da batalha não significa ausência de fé

Isso pode ser importante para alguém que luta contra determinado pecado e pensa: “Se eu fosse realmente cristão, não enfrentaria essa tentação.”

Mas Paulo reconhece o conflito. O problema não é simplesmente que exista batalha. A questão é: Quem está governando nossa caminhada?

Existe diferença entre lutar contra o pecado e entregar-se tranquilamente a ele. O cristão pode cair. Pode falhar. Pode precisar arrepender-se muitas vezes. Mas existe uma nova direção.

O Espírito produz em nós resistência àquilo que antes simplesmente aceitávamos.


As obras da carne

Antes do fruto, Paulo apresenta aquilo que chama de: “obras da carne”.

“Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas...” — Gálatas 5:19-21 (ARA)

Observe que a lista não contém apenas pecados que normalmente consideramos escandalosos.

Existem pecados relacionais: inimizades; ciúmes; iras; discórdias; invejas.

Podemos condenar determinados pecados visíveis e, ao mesmo tempo, alimentar silenciosamente orgulho, ressentimento, inveja e hostilidade.

Paulo coloca todos eles dentro da mesma realidade: obras da carne.


“Obras” da carne e “fruto” do Espírito

Existe uma diferença interessante na linguagem utilizada. Paulo fala das: “obras da carne” e depois do: “fruto do Espírito”.

Não deveríamos construir toda uma doutrina apenas sobre essa diferença de palavras, mas a imagem é significativa.

Uma obra pode ser produzida mecanicamente. Um fruto precisa de vida. Você pode fabricar uma cadeira. Mas não pode fabricar uma maçã. O fruto precisa nascer de uma árvore viva.

Da mesma maneira, podemos imitar externamente certos comportamentos cristãos. Podemos aprender linguagem religiosa. Podemos parecer pacientes. Podemos demonstrar educação. Podemos controlar nossa aparência diante das pessoas.

Mas o fruto espiritual verdadeiro nasce de uma vida que está sendo transformada pelo Espírito de Deus.


“Mas o fruto do Espírito é...”

Existe outra característica importante. Paulo escreve: “o fruto” no singular.

Não diz: “os frutos do Espírito são...”

Isso nos ajuda a enxergar essas nove características como partes de uma mesma obra do Espírito. Não se trata de escolher aquelas que combinam melhor com nossa personalidade.

Alguém não pode dizer: “Meu fruto é amor, mas domínio próprio não é comigo.”

Ou: “Sou fiel, mas não tenho paciência.”

Ou: “Tenho alegria, mas mansidão não faz parte da minha personalidade.”

O Espírito trabalha para formar todo o caráter de Cristo em nós. Algumas áreas podem amadurecer mais lentamente. Mas nenhuma delas deveria ser considerada opcional.


Amor

Paulo começa com: amor.

Isso não é coincidência. Pouco antes ele havia escrito:

“Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” — Gálatas 5:14 (ARA)

O amor ocupa posição central na ética cristã. Mas amor bíblico não é simplesmente sentimento. É disposição de buscar o bem do outro.

Jesus mostrou isso de maneira suprema na cruz.

“Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos.” — João 15:13 (ARA)

O amor do Espírito aparece quando começamos a perguntar menos: “O que essa pessoa pode fazer por mim?” e mais: “Como posso servi-la?”


Amar quem nos ama é fácil

O verdadeiro teste do amor cristão aparece quando o outro é difícil.

Jesus declarou:

“Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.” — Mateus 5:44 (ARA)

Amar pessoas agradáveis não exige necessariamente transformação sobrenatural. Mas tratar com graça quem nos ofendeu começa a revelar algo diferente.

O fruto do Espírito torna-se visível justamente onde nossa reação natural seria outra.


Alegria

A segunda característica é: alegria.

Não significa estar sorrindo o tempo inteiro. Nem significa ausência de tristeza. O próprio Jesus chorou. Paulo conheceu sofrimento profundo. A alegria cristã é mais profunda que uma emoção momentânea. Ela está fundamentada em Deus.

Paulo conseguiu escrever da prisão:

“Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos.” — Filipenses 4:4 (ARA)

Observe: “no Senhor.”

Nossa alegria pode coexistir com lágrimas porque sua fonte não é apenas aquilo que está acontecendo ao nosso redor.


Felicidade circunstancial e alegria espiritual

Existem dias felizes. E devemos agradecer por eles. Mas circunstâncias mudam. A alegria produzida pelo Espírito possui raízes mais profundas.

Ela consegue dizer: “Estou sofrendo, mas Deus continua sendo bom.” “Não compreendo tudo, mas Cristo continua sendo meu Salvador.” “Perdi algo importante, mas não perdi Deus.”

Isso não elimina a dor. Dá à dor um horizonte de esperança.


Paz

Depois vem: paz.

Novamente, não estamos falando simplesmente da ausência de problemas.

Jesus declarou:

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo.” — João 14:27 (ARA)

A paz de Cristo pode existir em ambientes onde humanamente esperaríamos apenas inquietação. Ela nasce da reconciliação com Deus e da confiança em Sua soberania.

Paulo escreve:

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo.” — Romanos 5:1 (ARA)

Antes da paz interior existe algo ainda maior: paz com Deus.


Paz também aparece nos relacionamentos

Não podemos limitar o fruto da paz à sensação interior. O Espírito também nos torna pessoas que procuram reconciliação.

Jesus disse:

“Bem-aventurados os pacificadores...” — Mateus 5:9 (ARA)

Existe diferença entre ser pacífico e ser pacificador. O pacificador trabalha para restaurar. Evita alimentar conflitos desnecessários. Não espalha fofoca. Não aumenta divisões. Não precisa vencer todas as discussões.

Às vezes, maturidade espiritual aparece na capacidade de deixar uma última palavra sem resposta.


Longanimidade

A palavra pode parecer antiga, mas seu significado é extremamente atual. Longanimidade envolve paciência, perseverança e capacidade de suportar dificuldades sem reagir impulsivamente.

É possuir um “ânimo longo”. Somos naturalmente impacientes. Queremos respostas rápidas. Resultados rápidos. Mudanças rápidas. Queremos que pessoas amadureçam no nosso ritmo. Mas Deus é paciente conosco.

Pedro escreve:

“...o Senhor é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” — 2 Pedro 3:9 (ARA)

Quanto mais compreendemos a paciência de Deus conosco, mais deveríamos aprender a exercê-la com os outros.


Pessoas são um dos principais lugares onde o fruto é testado

É relativamente fácil parecer paciente sozinho. O teste chega quando alguém: demora; discorda; erra; repete a mesma pergunta; nos interrompe; não corresponde às nossas expectativas.

É nos relacionamentos que descobrimos quanto do fruto realmente amadureceu. Espiritualidade bíblica não é medida apenas durante o culto. Ela aparece na fila. No trânsito. Em casa. No trabalho. Na internet.


Benignidade

A benignidade envolve uma disposição gentil e graciosa para com os outros.

Não é fraqueza.

É força governada pelo amor.

Uma pessoa benigna não procura constantemente maneiras de ferir, humilhar ou diminuir.

Paulo escreve:

“Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou.” — Efésios 4:32 (ARA)

Observe novamente o padrão: Deus fez conosco; agora aprendemos a fazer com os outros. O fruto nasce da graça recebida.


Podemos estar certos e ainda agir de maneira errada

Essa é uma aplicação importante. Especialmente em discussões teológicas. É possível defender uma doutrina verdadeira com arrogância. É possível corrigir um erro humilhando quem errou. É possível conhecer a Bíblia e utilizar esse conhecimento como arma para demonstrar superioridade.

Mas Paulo escreve:

“...seguindo a verdade em amor...” — Efésios 4:15 (ARA)

Verdade sem amor pode tornar-se brutalidade. Amor sem verdade pode tornar-se sentimentalismo. O Espírito produz ambos.


Bondade

A bondade está intimamente relacionada à benignidade, mas enfatiza a prática daquilo que é bom. Não basta desejar o bem. O fruto nos leva a fazer o bem.

Paulo escreve:

“E não nos cansemos de fazer o bem...” — Gálatas 6:9 (ARA)

Bondade pode aparecer em coisas muito simples: ajudar alguém; dividir recursos; encorajar; defender quem está sendo injustiçado; visitar; ouvir; servir; perdoar.

Talvez algumas das manifestações mais profundas do fruto do Espírito nunca apareçam em um púlpito. Acontecem silenciosamente no cotidiano.


Fidelidade

A palavra também pode ser traduzida como fé ou fidelidade, dependendo do contexto.

Aqui, dentro de uma lista de virtudes relacionais e de caráter, “fidelidade” expressa bem a ideia.

Ser fiel significa ser confiável. Cumprir a palavra. Permanecer. Não viver mudando de princípios conforme a conveniência.

Nossa fidelidade é resposta à fidelidade de Deus.

“Fiel é Deus...” — 1 Coríntios 1:9 (ARA)

Vivemos em uma cultura onde compromissos frequentemente são tratados como descartáveis. O fruto do Espírito produz pessoas cuja palavra possui peso.


Fidelidade aparece nas pequenas coisas

Jesus ensinou:

“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito...” — Lucas 16:10 (ARA)

Às vezes esperamos uma grande oportunidade para demonstrar fidelidade. Mas Deus trabalha muito através do pequeno. Cumprir uma promessa. Chegar quando combinamos. Fazer corretamente uma tarefa que ninguém fiscaliza. Ser honesto quando seria fácil mentir. Guardar uma confidência. Continuar servindo quando não recebemos reconhecimento.

Caráter é construído em lugares onde quase ninguém está olhando.


Mansidão

Talvez poucas palavras sejam tão mal compreendidas. Mansidão não significa fraqueza.

Jesus declarou:

“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...” — Mateus 11:29 (ARA)

Cristo era manso. E ninguém poderia chamá-Lo de fraco. Mansidão é poder sob controle. É não precisar responder a toda provocação. Não precisar demonstrar superioridade. Não transformar toda discordância em batalha.


Mansidão não significa ausência de firmeza

Jesus confrontou hipócritas. Paulo corrigiu erros. Os profetas denunciaram injustiça. Portanto, mansidão não significa nunca confrontar. Significa que nosso confronto não nasce de orgulho, vingança ou desejo de destruir.

Paulo orienta:

“...corrigindo com mansidão os que se opõem...” — 2 Timóteo 2:25 (ARA)

Existe uma maneira cristã de discordar. E isso talvez seja uma das demonstrações mais necessárias do fruto do Espírito em nosso tempo.


Domínio próprio

Paulo encerra a lista com: domínio próprio.

Essa característica toca praticamente todas as áreas da vida.

Palavras. Comida. Sexualidade. Dinheiro. Ira. Internet. Entretenimento. Desejos. impulsos.

O mundo frequentemente diz: “Se você deseja, faça.”

O Evangelho nos ensina: nem todo desejo deve governar você.

Liberdade não é obedecer a todo impulso. Liberdade é poder dizer não ao impulso quando ele nos afasta de Deus.


O Espírito Santo não elimina nossa responsabilidade

Algumas pessoas podem imaginar que, se o fruto é “do Espírito”, então basta esperar passivamente que Ele o produza. Mas Paulo não ensina passividade.

Antes da lista, ele ordena:

“Andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne.” — Gálatas 5:16 (ARA)

Depois escreve:

“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito.” — Gálatas 5:25 (ARA)

Existe cooperação obediente. O Espírito transforma. Nós caminhamos. O Espírito capacita. Nós respondemos.

A graça não elimina disciplina. Ela torna a transformação possível.


Fruto leva tempo

Existe uma característica óbvia de qualquer fruto natural: ele não amadurece instantaneamente.

Uma árvore recém-plantada não produz imediatamente uma colheita madura. Isso também nos ensina algo sobre a vida cristã.

Não deveríamos esperar perfeição instantânea de nós mesmos ou dos outros. Existe crescimento, processo, poda, estações.

Algumas áreas amadurecem rapidamente. Outras exigem anos.

O importante é perguntar: Existe crescimento?


Não compare seu fruto com o jardim do outro

Comparação espiritual pode ser perigosa. Observamos alguém e pensamos: “Eu deveria estar no mesmo nível.”

Mas não conhecemos toda a caminhada daquela pessoa. Deus trabalha conosco de maneira pessoal. Isso não significa diminuir o padrão bíblico. O padrão continua sendo Cristo.

Mas significa que nossa pergunta principal não deveria ser: “Estou melhor que aquela pessoa?” E sim: “Estou mais parecido com Cristo do que estava antes?”


Dons e fruto não são a mesma coisa

Essa distinção é fundamental. Uma pessoa pode possuir um dom impressionante e ainda ser espiritualmente imatura. Os coríntios são um exemplo.

Paulo diz:

“...não vos falta nenhum dom...” — 1 Coríntios 1:7 (ARA)

Mesmo assim, pouco depois precisa dizer:

“Eu, porém, irmãos, não vos pude falar como a espirituais, e sim como a carnais...” — 1 Coríntios 3:1 (ARA)

Eles possuíam dons. Mas tinham sérios problemas de caráter. Portanto: dom não é sinônimo de maturidade.


O fruto revela mais sobre maturidade do que a aparência de poder

Isso é extremamente importante para discernirmos lideranças e movimentos cristãos. Uma pessoa pode: pregar muito bem; cantar extraordinariamente; demonstrar grande conhecimento; atrair multidões; relatar experiências sobrenaturais; possuir enorme influência.

Mas precisamos perguntar: Existe fruto? Existe amor? Existe mansidão? Existe domínio próprio? Existe fidelidade? Existe bondade?

Jesus ensinou:

“Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis.” — Mateus 7:20 (ARA)

Carisma pode impressionar rapidamente. Caráter precisa ser observado ao longo do tempo.


O fruto não é produzido para nossa exibição

Existe outro perigo. Podemos começar a admirar nossa própria espiritualidade. “Veja como sou paciente.” “Veja como sou humilde.”

Mas humildade que precisa anunciar sua humildade já está em dificuldades. O fruto existe para glorificar aquele que o produz.

Jesus disse:

“Nisto é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto...” — João 15:8 (ARA)

A árvore não come seu próprio fruto. O fruto beneficia outros. Da mesma maneira, aquilo que o Espírito produz em nós deveria abençoar quem está ao nosso redor.


O segredo do fruto está na permanência

Jesus utiliza a imagem da videira:

“Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto...” — João 15:5 (ARA)

O ramo não produz fruto gritando: “Preciso produzir!” Ele produz porque está ligado à fonte da vida.

Isso não elimina esforço espiritual. Mas coloca o esforço no lugar correto.

Nossa transformação não nasce de tentar desesperadamente parecer cristãos. Nasce de permanecer em Cristo. Palavra, oração, obediência, comunhão, arrependimento, dependência.


Não transforme o fruto em uma nova forma de legalismo

Existe uma ironia que precisamos evitar. Gálatas combate o legalismo. Seria possível pegar Gálatas 5:22-23 e transformar o próprio fruto em uma lista legalista: “Preciso conseguir ser perfeitamente amoroso.” “Preciso produzir alegria.” “Preciso fabricar paciência.”

Então começamos novamente a tentar conquistar diante de Deus aquilo que somente Sua graça pode produzir.

O fruto não é a raiz da salvação. É consequência dela. Não produzimos fruto para que Deus nos aceite. Produzimos fruto porque, em Cristo, fomos alcançados pela graça e o Espírito está trabalhando em nós.


A árvore não é salva porque produz fruto

Ela produz fruto porque está viva. Essa distinção resume muito do ensino de Paulo. Boas obras não são a causa de nossa justificação. Mas uma fé verdadeira não permanece estéril.

Efésios 2:8-10 apresenta esse equilíbrio de maneira extraordinária. Somos salvos pela graça, mediante a fé, não por obras. Mas fomos criados em Cristo Jesus para boas obras.

A graça que salva também transforma.


“Contra estas coisas não há lei”

Paulo encerra dizendo: “Contra estas coisas não há lei.”

Nenhuma lei condena amor verdadeiro. Nenhuma lei de Deus condena paz, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio.

Pelo contrário, essas virtudes cumprem aquilo que a Lei apontava. O Espírito não conduz o cristão contra a vontade moral de Deus. Ele forma em nós um caráter coerente com ela.


“Os que são de Cristo Jesus”

O versículo seguinte é decisivo:

“E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências.” — Gálatas 5:24 (ARA)

Observe a identidade: “os que são de Cristo Jesus.”

O fruto começa com pertencimento.

Antes de perguntar: “Quanto fruto estou produzindo?” precisamos perguntar: “Eu pertenço a Cristo?”

Cristianismo não é simplesmente um programa de desenvolvimento pessoal para tornar pessoas mais gentis. É nova vida em Cristo.


Crucificar a carne

Paulo utiliza uma linguagem forte. “Crucificaram a carne.”

Não diz: “negociaram”, “administraram”, “alimentaram moderadamente”.

A relação do cristão com o pecado mudou. Não significa que a batalha acabou. Mas significa que já não fazemos paz com aquilo que Cristo morreu para nos libertar.

Existem desejos aos quais precisamos dizer: não. Existem hábitos que precisam morrer. Existem ambientes dos quais precisamos nos afastar. Existem comportamentos que precisam ser confessados.


“Andemos também no Espírito”

Então Paulo conclui:

“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito.” — Gálatas 5:25 (ARA)

A palavra “andemos” transmite continuidade. Vida cristã é caminhada. Um passo. Depois outro. Depois outro. Existem tropeços. Existe arrependimento. Existe aprendizado. Existe crescimento. Mas continuamos andando.


Como cultivar uma vida onde o fruto amadureça?

Não podemos fabricar o fruto, mas podemos utilizar os meios através dos quais Deus normalmente trabalha em nós. Leia a Palavra.

Ela confronta nossos pensamentos. Ore.

A oração nos coloca em dependência. Viva em comunhão.

Relacionamentos cristãos são lugares onde aprendemos amor, paciência e perdão. Confesse pecados.

Aquilo que escondemos dificilmente tratamos. Obedeça mesmo quando não sente vontade.

Domínio próprio amadurece através de escolhas. Olhe para Cristo.

Ele é o modelo perfeito de cada característica da lista.


Cristo é a expressão perfeita do fruto

Quer saber como é o amor? Olhe para Cristo. Alegria fundamentada no Pai? Cristo. Paz em meio à tempestade? Cristo. Paciência com pessoas difíceis? Cristo. Benignidade com quebrantados? Cristo. Bondade? Cristo. Fidelidade até o fim? Cristo. Mansidão acompanhada de autoridade? Cristo. Domínio próprio diante da tentação? Cristo.

O Espírito está formando em nós o caráter daquele a quem pertencemos.


Aplicação para nossa vida

Gálatas 5:22-23 nos convida a uma avaliação muito pessoal.

  • Tenho crescido em amor, inclusive por pessoas difíceis?

  • Minha alegria depende completamente das circunstâncias?

  • Tenho sido instrumento de paz ou alimentado conflitos?

  • Como reajo quando preciso esperar?

  • Minha maneira de tratar pessoas demonstra benignidade?

  • Tenho oportunidades de fazer o bem e as ignoro?

  • Minha palavra é confiável?

  • Sei discordar sem perder a mansidão?

  • Meus desejos governam minha vida ou tenho desenvolvido domínio próprio?

  • Estou mais preocupado com dons espirituais ou com caráter espiritual?

  • Minha vida pública combina com aquilo que sou quando ninguém está olhando?

  • As pessoas que convivem comigo percebem crescimento?

  • Tenho usado “esse é meu jeito” como desculpa para áreas que o Espírito deseja transformar?

  • Estou tentando produzir fruto por esforço próprio ou permanecendo em Cristo?

  • Existe alguma obra da carne com a qual parei de lutar?

Talvez algumas respostas nos incomodem. Isso pode ser saudável. O objetivo não é produzir condenação, mas levar-nos ao arrependimento e ao crescimento.


Talvez a melhor avaliação espiritual aconteça em casa

Podemos parecer extremamente espirituais durante algumas horas em público. Mas aqueles que convivem conosco conhecem outra dimensão.

Como tratamos nossa família? Como reagimos quando somos contrariados? Como falamos quando estamos cansados? Como tratamos alguém que não pode nos oferecer nada? Como reagimos quando ninguém reconhecerá aquilo que fizemos?

É nesses lugares comuns que o fruto aparece. Ou sua ausência.


Não procure apenas experiências; procure transformação

Experiências podem ser marcantes. Mas experiências passam. O fruto permanece e amadurece.

Uma pessoa pode sair profundamente emocionada de um culto e continuar tratando mal sua família. Pode relatar uma experiência espiritual extraordinária e continuar sem domínio próprio. Pode falar muito sobre poder e demonstrar pouco amor.

Por isso, talvez precisemos perguntar menos: “O que senti?” e mais: “No que estou me tornando?”

Essa pergunta está muito próxima do coração de Gálatas 5.


O Espírito não deseja apenas visitar momentos da nossa vida

Ele transforma nossa caminhada. Não apenas domingo. Segunda-feira também. Não apenas o culto. O trabalho. A casa. O trânsito. As redes sociais. As conversas particulares. As decisões financeiras. Os relacionamentos. A maneira como reagimos quando somos feridos.

O fruto do Espírito não é uma roupa religiosa que vestimos para determinadas ocasiões. É caráter sendo transformado.


O crescimento pode ser lento, mas precisa ser real

Talvez você olhe para sua vida e perceba: “Ainda tenho muito a crescer.”

Todos temos. A questão não é perfeição imediata. É direção.

Talvez você ainda seja impaciente, mas reconhece que hoje reage de maneira diferente de alguns anos atrás. Talvez ainda lute contra ira, mas agora se arrepende mais rapidamente. Talvez perdoar continue difícil, mas você já não consegue alimentar ressentimento tranquilamente. Talvez domínio próprio ainda seja uma batalha, mas agora existe batalha.

Isso também pode ser evidência de crescimento. Não despreze aquilo que Deus está fazendo. Mas também não se acomode.


O Jardineiro ainda está trabalhando

Fruto exige tempo, poda, cuidado, agua, luz.

Jesus disse:

“...todo o que dá fruto limpa, para que produza mais fruto ainda.” — João 15:2 (ARA)

Às vezes o processo de Deus inclui poda, correção, confronto, situações que revelam áreas que precisam amadurecer.

Talvez aquela pessoa difícil esteja revelando nossa falta de paciência. Talvez aquela espera esteja trabalhando perseverança. Talvez aquela crítica esteja expondo nosso orgulho.

Nem toda situação desconfortável é inútil. Deus pode utilizá-la para produzir fruto.


Conclusão

Gálatas 5:22-23 apresenta uma das descrições mais conhecidas da vida transformada pelo Espírito:

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei.”

Observe novamente aquilo que Paulo não menciona como evidência principal nesse texto: popularidade, eloquência, número de seguidores, posição religiosa, experiências extraordinárias, reconhecimento.

Ele aponta para: caráter. O Espírito Santo trabalha silenciosa e profundamente para formar Cristo em nós.

Onde havia egoísmo: amor.

Onde havia desespero: alegria.

Onde havia inquietação: paz.

Onde havia impaciência: longanimidade.

Onde havia dureza: benignidade.

Onde havia indiferença: bondade.

Onde havia instabilidade: fidelidade.

Onde havia orgulho: mansidão.

Onde os desejos governavam: domínio próprio.

Esse processo não acontece de um dia para outro. Mas acontece.

Porque o mesmo Espírito que nos deu nova vida continua trabalhando em nós. 

Portanto, talvez a pergunta mais importante não seja: “Quais dons eu possuo?”

Nem: “Quantas experiências espirituais já tive?”

Nem mesmo: “Quanto conhecimento bíblico acumulei?”

A pergunta pode ser muito mais simples e muito mais profunda: “Estou me tornando mais parecido com Jesus?”

Porque uma árvore saudável não precisa anunciar que está viva. Com o tempo, o fruto aparece.

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio.” — Gálatas 5:22-23 (ARA)

O sinal mais profundo da ação do Espírito não é quanto conseguimos impressionar as pessoas, mas quanto o caráter de Cristo começa a ser visto em nós.

Fernando Paulo Ferreira (Fefo)

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