Não Vos Inquieteis com o Dia de Amanhã

Reflexão Expositiva sobre Mateus 6:34

“Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.” — Mateus 6:34 (ARA)

Quantas vezes sofremos hoje por coisas que ainda nem aconteceram? Pensamos na próxima semana. No próximo mês. Nas contas que ainda vencerão. Na saúde. No trabalho. Na família. Em decisões que precisaremos tomar. Em problemas que talvez apareçam.

Criamos cenários, imaginamos conversas, antecipamos dificuldades e tentamos encontrar soluções para situações que sequer sabemos se existirão. O corpo está no presente, mas a mente já está vivendo amanhã.

É justamente a esse coração inquieto que Jesus dirige as palavras de Mateus 6:34: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã.”

À primeira vista, poderíamos interpretar essas palavras como uma recomendação para simplesmente não pensar no futuro. Mas Jesus não está condenando planejamento, responsabilidade ou prudência.

Ele está tratando de algo muito mais profundo: a ansiedade que tenta carregar hoje o peso de um amanhã que ainda não chegou.

Cristo não nos chama à irresponsabilidade. Ele nos chama à confiança. E, para compreendermos Mateus 6:34 corretamente, precisamos observar aquilo que Jesus ensinou antes de chegar a essa conclusão.


O contexto: o Sermão do Monte

Mateus 6 faz parte do Sermão do Monte, registrado nos capítulos 5 a 7. Jesus está ensinando Seus discípulos sobre a vida no Reino de Deus. Ele fala sobre oração, jejum, dinheiro, tesouros, prioridades, confiança, e, a partir do versículo 25, trata diretamente da ansiedade:

“Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir.” — Mateus 6:25 (ARA)

Observe a expressão: “Por isso.”

Assim como acontece em tantas passagens bíblicas, precisamos perguntar: Por causa de quê?

Jesus havia acabado de ensinar sobre tesouros e sobre quem governa nosso coração.

Pouco antes declarou:

“Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.” — Mateus 6:24 (ARA)

Portanto, a discussão sobre ansiedade não aparece isoladamente. Ela está ligada à questão da confiança.

Em quem depositamos nossa segurança? Em Deus? Ou naquilo que conseguimos acumular e controlar?


“Não vos inquieteis”

A palavra utilizada por Jesus não significa que jamais experimentaremos preocupação. Existem preocupações legítimas.

Paulo, por exemplo, fala de sua preocupação pelas igrejas:

“Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas.” — 2 Coríntios 11:28 (ARA)

Existe diferença entre cuidado responsável e ansiedade dominadora.

O cuidado pergunta: “O que posso fazer diante desta situação?”

A ansiedade frequentemente pergunta: “E se tudo der errado?”

O cuidado age no presente. A ansiedade tenta controlar o futuro. O cuidado reconhece responsabilidades. A ansiedade assume pesos que pertencem a Deus.


Ansiedade é uma tentativa impossível de viver no futuro

Pense nisso. Nenhum de nós consegue viver amanhã. Podemos planejar para amanhã. Podemos preparar coisas para amanhã. Podemos marcar compromissos para amanhã. Mas só podemos viver hoje.

Quando amanhã chegar, ele terá se tornado hoje. Por isso, a ansiedade produz uma espécie de divisão interior.

Nosso corpo está em uma data. Nossa mente está tentando existir em outra. E Jesus nos chama de volta: “Não vos inquieteis com o dia de amanhã.”


Jesus não está proibindo planejamento

Essa distinção é fundamental. Algumas pessoas poderiam utilizar Mateus 6:34 como desculpa para irresponsabilidade: “Não preciso planejar.” “Não preciso economizar.” “Não preciso pensar no futuro.” “Deus cuidará de tudo.”

Mas isso não corresponde ao restante das Escrituras.

Provérbios declara:

“Os planos do diligente tendem à abundância, mas a pressa excessiva, à pobreza.” — Provérbios 21:5 (ARA)

O próprio Jesus ensinou:

“Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir?” — Lucas 14:28 (ARA)

Planejar é sabedoria. Acreditar que nossos planos nos dão controle absoluto sobre o amanhã é outra coisa.


Planejamento diz: “Se Deus permitir”

Tiago apresenta o equilíbrio:

“Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros.” — Tiago 4:13 (ARA)

O problema não era planejar uma viagem ou um negócio. Era planejar como se Deus não existisse.

Por isso Tiago continua:

“Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.” — Tiago 4:15 (ARA)

O cristão pode possuir agenda, projetos, metas, planejamento financeiro, planos profissionais, mas escreve sobre todos eles, mesmo que invisivelmente: “Se o Senhor quiser.”


“Com o dia de amanhã”

Jesus conhece nossa tendência de viajar mentalmente para o futuro. Talvez a pergunta mais frequente da ansiedade seja: “E se...?”

E se eu perder meu emprego? E se eu adoecer? E se o dinheiro não for suficiente? E se aquela pessoa me abandonar? E se meu projeto fracassar? E se algo acontecer com alguém que amo? E se eu tomar a decisão errada?

Observe algo interessante. Muitas dessas perguntas descrevem coisas que podem acontecer, mas também podem não acontecer.

A ansiedade transforma possibilidades em sofrimentos presentes.


Sofremos duas vezes — e às vezes sofremos por algo que nunca acontecerá

Quando antecipamos uma dificuldade real, podemos começar a sofrer antes da hora. Se ela acontecer, teremos sofrido antes e durante. Mas existe ainda outra possibilidade: ela nunca acontecer.

Nesse caso, carregamos um sofrimento produzido inteiramente por nossa imaginação. Jesus não está dizendo que nada ruim acontecerá. Ele mesmo terminará o versículo reconhecendo que cada dia possui seu próprio mal.

O que Ele está dizendo é: não carregue hoje dores que pertencem a um dia que ainda não chegou.


“Pois o amanhã trará os seus cuidados”

Jesus não apresenta uma visão ingênua da vida. Ele não diz: “Não pense no amanhã porque tudo dará certo.”

Ele diz: “O amanhã trará os seus cuidados.”

Ou seja: amanhã realmente poderá ter dificuldades.

Isso é importante. A fé cristã não é pensamento positivo. Não precisamos fingir que problemas não existem. Jesus nunca prometeu uma vida sem tribulações.

Ele mesmo declarou:

“No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo.” — João 16:33 (ARA)

A esperança cristã não está na certeza de que amanhã será fácil. Está na certeza de que Deus continuará sendo Deus amanhã.


O Deus de hoje já estará no amanhã

Talvez essa seja uma das verdades mais consoladoras dessa passagem. Quando pensamos no futuro, normalmente imaginamos os problemas que poderemos encontrar.

Mas frequentemente esquecemos de incluir Deus nesse cenário. Imaginamos: a dificuldade futura, a perda futura, a conta futura, a decisão futura, o sofrimento futuro.

E pensamos em nós mesmos enfrentando tudo isso sozinhos. Mas, se aquele dia chegar, existe algo que também estará lá: a graça de Deus.

O Deus que sustenta você hoje não desaparecerá amanhã.


Jesus aponta para as aves

Antes de chegar ao versículo 34, Jesus utiliza a criação como uma grande aula de confiança.

“Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta.” — Mateus 6:26 (ARA)

Depois pergunta: “Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves?”

Jesus nos manda olhar para os pássaros. Não porque os pássaros sejam preguiçosos. Eles procuram alimento. Constroem ninhos. Cuidam dos filhotes. Existe atividade.

Mas não existe neles a capacidade humana de construir mentalmente dezenas de futuros possíveis e sofrer antecipadamente por cada um deles.


“Vosso Pai celeste”

Existe uma expressão preciosa nesse texto: “Vosso Pai.”

Jesus não está apresentando simplesmente uma teoria sobre providência. Ele está falando de relacionamento.

O Deus que governa o universo é chamado de Pai por aqueles que pertencem a Cristo. Isso muda a maneira como enxergamos o cuidado divino. Não estamos abandonados em um universo impessoal. Existe um Pai. E Ele sabe.


“Vosso Pai celeste sabe”

Jesus declara mais adiante:

“Pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas elas.” — Mateus 6:32 (ARA)

Talvez essas sejam algumas das palavras mais consoladoras de toda a passagem: “Vosso Pai sabe.”

Antes de você explicar: Ele sabe.

Antes de você pedir: Ele sabe.

Antes de você descobrir a necessidade: Ele sabe.

Isso não torna a oração desnecessária. Pelo contrário. Torna a oração segura. Não oramos para informar Deus sobre algo que Ele desconhecia. Oramos porque dependemos de um Pai que já conhece nossas necessidades.


Deus sabe não significa que Deus dará tudo o que queremos

Também precisamos fazer essa distinção. Jesus fala sobre necessidades.

Existe diferença entre aquilo que necessitamos e aquilo que desejamos. Às vezes pedimos algo acreditando que seria indispensável.

Deus pode responder: “Não.”

Em outros momentos: “Espere.”

E em outros: “Sim.”

A confiança cristã não diz: “Deus fará exatamente aquilo que eu quero.”

Ela diz: “Meu Pai sabe aquilo de que realmente preciso.”


Os lírios também pregam

Jesus utiliza outra imagem:

“Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam.” — Mateus 6:28 (ARA)

E então afirma que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles.

Novamente, a criação se torna professora. Pássaros, flores, campos, todos apontam para a providência de Deus.

E Jesus conclui:

“Ora, se Deus veste assim a erva do campo... quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?” — Mateus 6:30 (ARA)


A ansiedade também toca a questão da fé

Jesus utiliza a expressão: “homens de pequena fé.”

Isso exige cuidado. Não significa que toda ansiedade experimentada por uma pessoa possa ser simplificada como falta de fé. Existem dimensões emocionais, circunstanciais e até clínicas que precisam ser tratadas com seriedade e, quando necessário, com auxílio profissional.

Mas, no contexto específico do Sermão do Monte, Jesus está tratando da ansiedade ligada à confiança na providência de Deus.

Nesse sentido, existe uma pergunta espiritual legítima: Eu realmente acredito que meu Pai sabe do que preciso?


A ansiedade promete controle, mas não consegue entregar

Jesus pergunta:

“Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?” — Mateus 6:27 (ARA)

Essa pergunta desmonta uma das ilusões da ansiedade. Às vezes sentimos que preocupar-nos muito significa estar fazendo alguma coisa.

Mas preocupação não é necessariamente preparação. Podemos passar horas imaginando um problema sem avançar um centímetro em direção à solução.

Jesus pergunta, em essência: O que sua ansiedade conseguiu acrescentar?


Existem coisas que podemos fazer e coisas que precisamos entregar

Essa distinção pode ajudar muito. Diante de uma preocupação, podemos perguntar: Existe alguma coisa responsável que posso fazer hoje?

Se sim: faça. Marque a consulta. Converse com a pessoa. Organize as contas. Envie o currículo. Estude. Planeje. Peça ajuda. Resolva aquilo que está ao seu alcance.

Mas depois existe outra pergunta: Existe alguma coisa que está completamente fora do meu controle?

Se sim: entregue. Não porque seja irrelevante. Mas porque você não foi criado para governar o universo.


“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino”

No centro dessa passagem encontramos Mateus 6:33:

“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” — Mateus 6:33 (ARA)

Aqui está a alternativa de Jesus à ansiedade: prioridade.

Ele não diz apenas: “Pare de pensar nas coisas.”

Ele direciona nosso pensamento e nossa vida: Busque primeiro o Reino de Deus.

Quando nossa mente está dominada pelo amanhã, Jesus nos chama de volta para a pergunta: “O que significa obedecer a Deus hoje?”


Talvez você não precise resolver amanhã hoje

Essa é uma aplicação simples, mas profunda. Talvez exista uma decisão que só poderá ser tomada na próxima semana. Você ainda não possui todas as informações. Então por que exigir de si mesmo uma resposta hoje?

Talvez exista uma conversa que acontecerá amanhã. Você pode se preparar. Mas não consegue vivê-la antecipadamente.

Talvez exista uma situação financeira que exigirá decisões futuras. Faça aquilo que é possível hoje. O restante ainda não pertence ao seu dia.


Deus normalmente nos dá graça para o dia, não para cenários imaginários

Talvez você pense: “Eu jamais suportaria se determinada coisa acontecesse.”

Talvez realmente não suportasse com as forças que possui hoje.

Mas você está imaginando uma dificuldade futura utilizando apenas a graça que recebeu para o presente. Se aquele dia chegar, Deus poderá conceder recursos que hoje você ainda não precisa.

Paulo ouviu do Senhor:

“A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.” — 2 Coríntios 12:9 (ARA)

Não precisamos receber hoje toda a graça necessária para os próximos vinte anos. Precisamos da graça necessária para hoje.


O maná era diário

Existe uma bela ilustração desse princípio no Antigo Testamento. Quando Israel estava no deserto, Deus fornecia maná. O povo precisava recolhê-lo conforme a orientação divina.

Eles estavam aprendendo diariamente: dependência.

Jesus nos ensina algo semelhante na oração do Pai-Nosso:

“O pão nosso de cada dia dá-nos hoje.” — Mateus 6:11 (ARA)

Observe: não o pão de toda a vida. O pão de hoje.

Existe uma pedagogia divina na dependência diária.


“Basta ao dia o seu próprio mal”

A última frase de Jesus é extremamente realista: “Basta ao dia o seu próprio mal.”

Jesus não promete um dia sem problemas. Ele diz que cada dia já possui seus próprios desafios.

Por isso, não precisamos acrescentar aos problemas reais de hoje todos os problemas imaginários de amanhã.

Hoje já possui: responsabilidades, decisões, tentações, dificuldades, tarefas. E também possui: graça, misericórdia, presença de Deus, oportunidades de obedecer.


A misericórdia também chega todas as manhãs

Lamentações declara:

“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã.” — Lamentações 3:22–23 (ARA)

Cada manhã traz suas próprias necessidades. Mas também encontramos misericórdias renovadas.

A ansiedade olha para amanhã e pergunta: “E se houver problemas?”

A fé responde: “Se amanhã chegar, as misericórdias de Deus também estarão lá.”


A oração transforma preocupação em dependência

Paulo apresenta uma orientação muito prática:

“Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.” — Filipenses 4:6 (ARA)

Observe que Paulo não diz simplesmente: “Pare de ficar ansioso.”

Ele oferece uma direção: leve aquilo a Deus.

Transforme preocupação em oração. Aquilo que fica circulando repetidamente em nossa mente pode ser transformado em petição.


Não precisamos esconder nossas preocupações de Deus

Às vezes imaginamos que uma oração cheia de fé precisa parecer sempre confiante e tranquila.

Os Salmos mostram outra coisa. Existem perguntas. Lamentos. Lágrimas. Medos. Dúvidas. 

Oração não significa fingir que estamos bem.

Podemos dizer: “Senhor, estou preocupado.” “Tenho medo.” “Não sei como resolver isso.” “Não consigo controlar o que acontecerá.”

E então: “Mas entrego isso a Ti.”

Isso também é fé.


Entregar pode precisar acontecer mais de uma vez

Talvez alguém diga: “Eu já orei sobre isso, mas a preocupação voltou.”

Ore novamente.

Não existe uma regra dizendo que uma preocupação só pode ser entregue uma vez. Algumas batalhas precisam ser enfrentadas repetidamente.

Toda vez que o pensamento voltar, podemos transformá-lo novamente em oração. Isso não significa que a oração anterior falhou. Significa que continuamos dependentes.


O presente é o lugar da obediência

Existe uma coisa que a ansiedade pelo amanhã pode roubar: a fidelidade de hoje.

Podemos ficar tão preocupados com aquilo que talvez aconteça que deixamos de perceber aquilo que Deus colocou diante de nós agora. Uma pessoa para amar. Uma tarefa para cumprir. Uma oração para fazer. Uma conversa para ter. Uma oportunidade para servir. Uma Palavra para ler. Um pecado para abandonar.

O futuro pertence a Deus. A obediência de hoje foi colocada diante de nós.


Jesus viveu essa confiança

Cristo não apenas ensinou confiança no Pai. Ele viveu essa confiança.

Na noite antes da cruz, no Getsêmani, Jesus sabia que enfrentaria sofrimento. Ele não fingiu que seria fácil. Sua angústia foi real.

Ele orou:

“Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres.” — Mateus 26:39 (ARA)

Aqui vemos confiança perfeita. Não negação da dor. Não indiferença. Mas submissão: “Seja feita a tua vontade.”


A cruz prova que podemos confiar no Pai

Quando nossas circunstâncias nos fazem perguntar se Deus realmente se importa conosco, precisamos olhar para a cruz.

Paulo escreve:

“Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?” — Romanos 8:32 (ARA)

A cruz não significa que nunca sofreremos. O próprio Cristo sofreu. Mas significa que nunca precisamos interpretar nossas dificuldades como prova de que Deus simplesmente deixou de amar Seu povo.

O Calvário já demonstrou a profundidade desse amor.


Ansiedade e nossa necessidade de controle

Existe ainda uma questão mais profunda. Muitas vezes nossa ansiedade revela quanto desejamos controlar aquilo que somente Deus pode controlar.

Queremos garantir resultados. Prever acontecimentos. Eliminar riscos. Conhecer antecipadamente todas as respostas. Mas não somos Deus.

Reconhecer isso não é derrota. É liberdade.

Podemos dizer: “Senhor, existe uma parte que cabe a mim e existe uma parte que pertence somente a Ti.”

Sabedoria é aprender a diferença.


Não carregue uma responsabilidade que Deus nunca lhe deu

Você não recebeu a responsabilidade de garantir que tudo dará certo. Você recebeu a responsabilidade de ser fiel.

Existe uma enorme diferença. Não controlamos: as escolhas de outras pessoas; todas as circunstâncias; o resultado de nossos esforços; a economia; o futuro; o tempo de nossa vida.

Mas podemos escolher: obedecer; orar; trabalhar com honestidade; planejar com sabedoria; amar; perdoar; buscar o Reino; confiar.


O futuro não está vazio

Quando olhamos para amanhã, enxergamos um espaço desconhecido. Mas, para Deus, amanhã não é desconhecido. Ele já conhece aquilo que para nós ainda é futuro.

O Salmo 139 declara:

“Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias...” — Salmo 139:16 (ARA)

Nós caminhamos em direção ao desconhecido. Deus não.

Por isso podemos segurar Sua mão.


Aplicação para nossa vida

Mateus 6:34 nos convida a algumas perguntas:

  • Tenho carregado hoje preocupações que pertencem apenas ao amanhã?

  • Estou confundindo planejamento responsável com tentativa de controlar o futuro?

  • Quanto do meu sofrimento atual é provocado por coisas que ainda nem aconteceram?

  • Quando imagino o futuro, incluo a presença e a graça de Deus nesse cenário?

  • Tenho transformado minhas preocupações em oração?

  • Existe alguma providência prática que posso tomar hoje?

  • Existe alguma situação que preciso simplesmente entregar a Deus?

  • Minha segurança está em Deus ou naquilo que consigo acumular e controlar?

  • Tenho buscado primeiro o Reino de Deus?

  • Estou permitindo que preocupações futuras me impeçam de obedecer no presente?

  • Consigo dizer sinceramente: “Se o Senhor quiser” sobre meus planos?

  • Tenho confiado que meu Pai sabe aquilo de que realmente preciso?

Essas perguntas não pretendem produzir culpa. Elas nos ajudam a identificar pesos que talvez estejamos carregando sem necessidade.


Uma pergunta prática para cada preocupação

Quando uma preocupação aparecer, talvez possamos fazer três perguntas:

1. Isso é um problema de hoje ou estou tentando viver amanhã antecipadamente?

2. Existe alguma coisa responsável que posso fazer agora?

3. Aquilo que não posso controlar, estou disposto a entregar a Deus?

Essas perguntas não resolvem magicamente todas as nossas emoções. Mas podem nos ajudar a distinguir responsabilidade de ansiedade.


Hoje

Existe uma palavra que aparece silenciosamente por trás de todo o ensino de Jesus: hoje.

Hoje podemos buscar o Reino. Hoje podemos trabalhar. Hoje podemos orar. Hoje podemos amar. Hoje podemos obedecer. Hoje podemos confiar.

Amanhã, se Deus nos conceder outro dia, faremos tudo isso novamente. Essa é a caminhada cristã. Um dia de cada vez.


Quando amanhã chegar

Talvez amanhã realmente traga uma dificuldade. Jesus não negou essa possibilidade. Mas quando amanhã chegar, você não encontrará apenas o problema.

Encontrará também: Deus.

Sua Palavra continuará verdadeira. Cristo continuará sendo Senhor. O Espírito Santo continuará presente. A graça continuará suficiente. As misericórdias continuarão se renovando.

Por isso não precisamos importar antecipadamente os problemas de amanhã para dentro de hoje.


Conclusão

Jesus termina essa parte do Sermão do Monte com palavras extremamente simples:

“Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.” — Mateus 6:34 (ARA)

Ele não está prometendo uma vida sem problemas. Também não está proibindo planejamento. Está nos libertando da pretensão impossível de controlar o futuro.

Planeje. Trabalhe. Economize. Organize-se. Prepare-se. Tome decisões responsáveis.

Mas depois de fazer aquilo que cabe a você: confie.

O amanhã pertence a Deus. Talvez ele traga alegrias que você ainda não consegue imaginar. Talvez traga desafios. Provavelmente trará ambos. Mas existe algo que certamente não mudará: o Deus que cuida de você hoje continuará sendo Deus amanhã.

Por isso, não precisamos receber hoje a força para todos os problemas que talvez enfrentemos durante o restante da vida.

Precisamos da graça para este dia. Não precisamos resolver hoje todas as questões do próximo mês.

Precisamos obedecer hoje. Não precisamos conhecer todo o caminho.

Precisamos confiar naquele que conhece.

Quando amanhã chegar, será outro hoje.

E encontraremos novas responsabilidades. Novos desafios. Novas oportunidades. E novas misericórdias.

Portanto: faça hoje aquilo que Deus colocou em suas mãos. Entregue a Ele aquilo que está fora delas.

E permita que o amanhã permaneça onde sempre esteve: nas mãos de Deus.

“Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.” — Mateus 6:34 (ARA)

Não carregue hoje o peso de um amanhã que ainda não chegou. O Deus que lhe concede graça para este dia continuará presente quando o próximo chegar.

Fernando Paulo Ferreira (Fefo)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Correndo com Perseverança: Lições de Hebreus 12:1

Transformação pela Mente: Vivendo a Vontade Perfeita de Deus segundo Romanos 12:2

Abraços de perdão: a reconciliação de Jacó e Esaú em Gênesis 33:4