Não Sejas Sábio aos Teus Próprios Olhos


Reflexão Expositiva sobre Provérbios 3:7

“Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal.” — Provérbios 3:7 (ARA)

Existe uma forma de ignorância que reconhece que não sabe. E existe outra, muito mais perigosa, que está convencida de que sabe o suficiente.

Provérbios 3:7 trata exatamente desse segundo perigo.

O versículo não condena o conhecimento, o estudo, a inteligência ou a capacidade de tomar decisões. A Bíblia valoriza a sabedoria. O próprio livro de Provérbios foi escrito, entre outras razões, para ensinar sabedoria.

O problema aparece quando a pessoa passa a confiar tanto em seu próprio entendimento que já não considera necessário submetê-lo a Deus.

Ela não diz necessariamente: “Não acredito em Deus.” Pode até professar fé. Mas vive como se dissesse: “Nesta parte da minha vida, eu sei o que estou fazendo.”

É possível reconhecer Deus com os lábios e, ao mesmo tempo, manter determinadas áreas do coração fora de Seu governo.

Por isso, Provérbios 3:7 apresenta três movimentos profundamente relacionados: não confiar arrogantemente na própria sabedoria, temer ao Senhor e afastar-se do mal.

Esses três elementos revelam algo fundamental: A verdadeira sabedoria começa quando deixamos de ocupar o lugar que pertence somente a Deus.


O contexto de Provérbios 3

Provérbios faz parte da literatura sapiencial do Antigo Testamento. Nos primeiros capítulos, encontramos frequentemente a linguagem de um pai instruindo seu filho:

“Filho meu, não te esqueças dos meus ensinos, e o teu coração guarde os meus mandamentos.” — Provérbios 3:1

Não estamos diante apenas de uma coleção aleatória de frases inteligentes. Existe uma formação espiritual acontecendo.

O pai está ensinando ao filho como viver diante de Deus. Isso inclui decisões, relacionamentos, dinheiro, disciplina, caráter, palavras, desejos e prioridades.

A sabedoria bíblica não é meramente saber muitas coisas. É aprender a viver corretamente à luz de quem Deus é.


O versículo anterior prepara o caminho

Provérbios 3:7 não deve ser separado dos versículos 5 e 6:

“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.” — Provérbios 3:5-6

Então vem:

“Não sejas sábio aos teus próprios olhos...”

Perceba a sequência. Confia no Senhor. Não dependa exclusivamente do próprio entendimento. Reconheça Deus em todos os caminhos. Não seja sábio aos próprios olhos.

O tema é confiança.

A questão central é: Em quem repousa a palavra final sobre a minha vida?


“Não sejas sábio...”

Essa frase pode parecer estranha à primeira vista. Afinal, Provérbios não está constantemente nos incentivando a buscar sabedoria?

Sim.

Provérbios 4:7 declara:

“Adquire a sabedoria, adquire o entendimento.”

Então como o mesmo livro pode dizer: “Não sejas sábio”?

Porque ele não diz simplesmente: “Não seja sábio.”

Ele diz: “Não sejas sábio aos teus próprios olhos.”

Existe uma enorme diferença. Deus não está condenando sabedoria. Está condenando autossuficiência intelectual e moral.


O problema não é pensar

A fé bíblica não exige que abandonemos nossa capacidade de raciocinar. Deus nos deu mente. Devemos estudar. Pesquisar. Comparar. Planejar. Buscar conselhos. Avaliar consequências. Aprender com experiências. Desenvolver conhecimento.

O problema começa quando nossa conclusão passa a ocupar uma posição que nem mesmo Deus pode questionar.

Nesse momento, deixamos de utilizar a inteligência como um dom e começamos a transformá-la em um trono.

A mente é uma excelente serva, mas uma péssima divindade.


“Aos teus próprios olhos”

Essa expressão nos leva para dentro do coração. O problema não é apenas aquilo que sabemos. É como nos enxergamos em relação ao que sabemos.

Uma pessoa sábia aos próprios olhos tem dificuldade para admitir: “Eu estava errado.” Tem dificuldade para ouvir conselhos. Interpreta correção como ataque. Procura pessoas que confirmem aquilo que já decidiu. Pode pedir opinião, mas somente aceita a opinião que concorda com ela. Pode até orar por direção depois de já ter decidido para onde pretende ir.

Nesse caso, a oração corre o risco de se tornar apenas uma tentativa de conseguir aprovação divina para uma decisão humana.


Podemos pedir direção querendo apenas confirmação

Esse perigo é muito sutil. Às vezes dizemos: “Senhor, mostra-me a tua vontade.”

Mas interiormente acrescentamos: “Desde que seja aquilo que eu quero.”

Queremos que Deus dirija, mas já escolhemos o destino. Queremos conselho, mas não queremos ser contrariados. Queremos que a Bíblia fale, desde que ela concorde conosco.

Isso não é submissão. É tentar transformar Deus em alguém que simplesmente assina nossos planos.

A verdadeira oração precisa incluir a possibilidade de Deus responder: “Não.” Ou: “Espere.” Ou ainda: “Esse caminho não é para você.”


A autoconfiança pode ser silenciosa

Nem toda arrogância é barulhenta. Há pessoas que nunca dizem: “Eu sei tudo.” Mas vivem dessa maneira.

Tomam decisões importantes sem oração. Ignoram princípios bíblicos quando estes atrapalham seus desejos. Rejeitam advertências. Não procuram conselhos. Quando procuram, escolhem somente pessoas que provavelmente concordarão.

Depois, se alguma coisa dá errado, perguntam: “Por que Deus permitiu isso?”

Mas talvez uma pergunta anterior fosse necessária: “Eu realmente permiti que Deus participasse da decisão?”


Experiência não nos torna infalíveis

A experiência é valiosa. Quem viveu mais provavelmente aprendeu coisas que alguém mais jovem ainda não aprendeu. Mas experiência não produz infalibilidade.

Podemos ter feito algo durante décadas e ainda estar errados. Podemos ter tido sucesso em determinado método e imaginar que ele funcionará para sempre. Podemos confundir: “Sempre fiz assim” com: “Deus quer que continue assim.”

Maturidade não significa chegar ao ponto em que já não precisamos aprender.

Na perspectiva bíblica, maturidade deveria nos tornar mais ensináveis, não menos. Quanto mais conhecemos, mais percebemos quanto ainda não sabemos.


O sucesso também pode nos tornar sábios aos nossos próprios olhos

Existe um perigo especial nos períodos em que tudo parece funcionar.

Quando atravessamos dificuldades, geralmente reconhecemos mais facilmente nossa dependência de Deus.

Mas quando os projetos dão certo, o dinheiro chega, as decisões funcionam e recebemos reconhecimento, algo pode acontecer silenciosamente: começamos a atribuir tudo à nossa capacidade.

Foi exatamente esse perigo que Deus advertiu Israel a evitar. Depois de entrar na terra e experimentar prosperidade, o povo poderia dizer:

“A minha força e o poder do meu braço me adquiriram estas riquezas.” — Deuteronômio 8:17

O sucesso pode produzir uma ilusão: “Eu descobri como a vida funciona.” E então deixamos de depender daquele que nos sustentou até ali.


O fracasso também pode revelar orgulho

Curiosamente, orgulho não aparece somente quando pensamos que somos excelentes. Ele também pode aparecer quando não conseguimos aceitar nossas limitações.

Às vezes sofremos não apenas porque fracassamos, mas porque nossa imagem de nós mesmos dizia: “Eu não deveria fracassar.”

A humildade permite dizer: “Eu errei.” “Eu não sei.” “Preciso aprender.” “Preciso de ajuda.”

Essas frases não diminuem uma pessoa. Frequentemente demonstram maturidade.


“Teme ao Senhor”

Depois da advertência negativa, Provérbios apresenta a alternativa: “...teme ao Senhor...”

Aqui está o coração da sabedoria bíblica. Provérbios já havia declarado:

“O temor do Senhor é o princípio do saber.” — Provérbios 1:7

Temer ao Senhor não significa viver aterrorizado diante de Deus como alguém tentando escapar de um tirano imprevisível.

O temor bíblico envolve reverência, reconhecimento de Sua santidade, submissão à Sua autoridade e consciência de que Ele é Deus e nós não somos.

É colocar Deus no lugar de Deus. E colocar-nos no nosso lugar.


O temor de Deus reorganiza a vida

Quando realmente tememos ao Senhor, algumas perguntas começam a mudar.

Em vez de perguntar apenas: “Isso me beneficia?” perguntamos: “Isso agrada a Deus?”

Em vez de: “Posso fazer isso?” perguntamos: “Devo fazer isso?”

Em vez de: “Todo mundo está fazendo.” perguntamos: “O que a Palavra de Deus diz?”

Em vez de: “Como vou parecer diante das pessoas?” perguntamos: “Como estou vivendo diante de Deus?”

Essa mudança é profunda. O temor do Senhor transfere o centro da existência do eu para Deus.


Temor do Senhor e amor por Deus não são inimigos

Alguns imaginam que, como Deus nos ama, não deveríamos falar em temê-Lo. Mas a Bíblia não apresenta essas coisas como incompatíveis.

Quanto mais compreendemos a santidade de Deus, mais extraordinária se torna Sua graça.

O Deus diante de quem deveríamos nos curvar é o Deus que veio ao nosso encontro em Cristo.

O temor cristão não é o terror de um condenado tentando fugir do juiz. Para aquele que está em Cristo, é a reverência de um filho que reconhece a grandeza de seu Pai e não deseja tratar Sua graça com desprezo.


“E aparta-te do mal”

Agora chegamos ao terceiro movimento. A verdadeira sabedoria produz consequências práticas.

Não basta dizer: “Eu temo a Deus.” Se continuamos deliberadamente abraçados ao mal.

O temor do Senhor precisa aparecer nas escolhas. Por isso: “Teme ao Senhor e aparta-te do mal.”

A teologia alcança os pés. Aquilo que acreditamos determina para onde caminhamos.


Há momentos em que vencer significa afastar-se

Às vezes pensamos que maturidade espiritual significa conseguir permanecer perto da tentação sem cair.

A Bíblia frequentemente apresenta outra estratégia: afaste-se.

José não ficou tentando provar que conseguiria resistir à mulher de Potifar indefinidamente. Quando a situação chegou ao limite, ele fugiu.

Paulo orientou Timóteo:

“Foge, outrossim, das paixões da mocidade.” — 2 Timóteo 2:22

Existem batalhas que não vencemos ficando para demonstrar força. Vencemos saindo. Talvez afastar-se do mal signifique terminar determinada conversa. Evitar determinado ambiente. Colocar limites. Parar de acessar algo. Romper um hábito. Não responder uma mensagem naquele momento. Pedir ajuda. Confessar uma fraqueza.

Às vezes, a atitude mais corajosa não é permanecer. É sair.


Não negocie longamente com aquilo que Deus já chamou de mal

Uma das estratégias do coração humano é tentar transformar desobediência em debate.

Deus já revelou algo claramente. Mas começamos: “Será que é tão errado assim?” “E se for só uma vez?” “Minha situação é diferente.” “Deus conhece meu coração.”

Sim, Deus conhece nosso coração. E justamente por isso devemos levar a sério Sua Palavra.

Quando as Escrituras são claras, não precisamos de uma nova revelação para decidir se obedeceremos.

Direção de Deus nunca será desculpa para desobedecer à Palavra de Deus.


O coração sabe construir argumentos convincentes

Jeremias advertiu:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas.” — Jeremias 17:9

Isso significa que somos capazes de justificar quase qualquer coisa quando desejamos suficientemente aquilo que queremos justificar.

Podemos chamar ganância de ambição, orgulho de personalidade forte, vingança de justiça, covardia de prudência, controle de cuidado, fofoca de preocupação, imprudência de fé.

Por isso precisamos de algo fora de nós para corrigir aquilo que existe dentro de nós. Precisamos da Palavra. Precisamos do Espírito.

E frequentemente precisamos de pessoas maduras que tenham liberdade para nos dizer aquilo que não gostaríamos de ouvir.


Quem pode contrariar você?

Essa é uma boa pergunta para medir nossa humildade. Existe alguém em sua vida que pode dizer: “Acho que você está errado”? E você realmente ouvir? Não apenas tolerar. Ouvir. Considerar. Orar. Examinar.

Naturalmente, conselhos humanos também podem estar errados. Nenhum conselheiro substitui a Palavra de Deus.

Mas Provérbios valoriza repetidamente a multiplicidade de conselhos. Uma pessoa que nunca pode ser corrigida já está caminhando perigosamente perto de ser sábia aos próprios olhos.


Nem toda convicção forte significa que estamos certos

Podemos estar sinceramente convencidos e sinceramente errados. Sinceridade não transforma erro em verdade.

Paulo é um exemplo impressionante. Antes de encontrar Cristo, estava profundamente convencido de que perseguir os cristãos era defender a honra de Deus.

Ele não era indiferente. Era zeloso. Mas seu zelo estava errado.

No caminho de Damasco, Cristo não apenas mudou os planos de Paulo. Mudou sua compreensão.

Há momentos em que Deus precisa fazer algo semelhante conosco: não apenas mudar nossas circunstâncias, mas corrigir nossa interpretação delas.


Sabedoria bíblica não significa ausência de planejamento

Provérbios 3:7 também não deve ser utilizado para defender irresponsabilidade. Confiar em Deus não significa deixar de planejar.

A Bíblia elogia prudência. Jesus falou sobre calcular o custo antes de construir uma torre. Provérbios valoriza trabalho diligente, previsão e conselho.

O problema não é ter planos. É tratar nossos planos como soberanos.

Tiago confronta pessoas que diziam:

“Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros.” — Tiago 4:13

O problema não era fazer negócios. Era planejar como se Deus não existisse.

Por isso Tiago acrescenta:

“Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.” — Tiago 4:15

Planejamento cristão escreve seus projetos a lápis e entrega a Deus a borracha.


Faça sua parte sem assumir o lugar de Deus

Existe uma diferença entre responsabilidade e controle.

Responsabilidade pergunta: “O que Deus colocou em minhas mãos?”

Controle pergunta: “Como faço para garantir tudo?”

Nem tudo pode ser garantido. Podemos trabalhar corretamente e enfrentar dificuldades. Podemos tomar decisões prudentes e ainda encontrar imprevistos. Podemos cuidar de alguém e não controlar suas escolhas. Podemos planejar amanhã e não saber exatamente o que amanhã trará.

Por isso, a sabedoria bíblica nos ensina: faça com fidelidade aquilo que Deus colocou em suas mãos e entregue a Ele aquilo que nunca esteve sob seu controle.


Nem toda porta aberta vem de Deus

Outro pensamento comum diz: “Se apareceu a oportunidade, deve ser Deus.”

Não necessariamente.

Jonas encontrou um navio indo exatamente para a direção contrária àquela que Deus havia ordenado. Havia vaga. Havia transporte. Provavelmente havia condições de pagar. E ainda assim aquele navio não representava a vontade de Deus.

Circunstâncias favoráveis não substituem discernimento. Nem toda facilidade é aprovação divina. Da mesma forma, nem toda dificuldade significa que estamos no caminho errado.

Paulo encontrou portas abertas acompanhadas de oposição. Jesus caminhou perfeitamente na vontade do Pai e terminou numa cruz.

Por isso, sabedoria não consiste simplesmente em seguir aquilo que parece mais fácil.


“Eu sinto paz” também precisa de discernimento

Outra frase frequentemente utilizada é: “Senti paz, então deve ser de Deus.”

A paz pode acompanhar uma decisão correta. Mas nosso sentimento de tranquilidade, sozinho, não é um teste infalível da vontade de Deus.

Jonas conseguiu dormir profundamente dentro do navio enquanto fugia da ordem divina. Podemos sentir tranquilidade porque nossa consciência foi bem instruída. Mas também podemos sentir tranquilidade porque nos acostumamos com determinada escolha.

A pergunta continua sendo: Isso está de acordo com a Palavra de Deus?


A verdadeira sabedoria permanece ensinável

Uma pessoa humilde pode possuir convicções firmes. Humildade não significa viver sem certeza. Também não significa concordar com todo mundo. Significa reconhecer: “Eu não sou Deus.” “Posso estar errado.” “Preciso da Palavra.” “Preciso da graça.” “Posso aprender.”

Existe grande diferença entre convicção e arrogância.

Convicção diz: “Creio que isso é verdadeiro e posso apresentar as razões.”

Arrogância diz: “Quem discorda de mim só pode ser ignorante.”

A sabedoria bíblica combina firmeza com humildade.


Jesus é a sabedoria que não encontramos em nós mesmos

O Evangelho leva essa reflexão muito além de simplesmente aprender a tomar decisões melhores. Nosso problema não é apenas falta de informação.

É pecado. Não precisávamos somente de um professor. Precisávamos de um Salvador.

E o Novo Testamento apresenta Cristo como a sabedoria de Deus.

Paulo escreve que Cristo:

“se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção.” — 1 Coríntios 1:30

Isso muda completamente nossa esperança. Nossa salvação não depende de finalmente nos tornarmos sábios o suficiente para encontrar Deus.

Deus veio até nós em Cristo.


A cruz destrói a sabedoria orgulhosa

A cruz parecia loucura aos olhos do mundo. Um Messias crucificado? Um Rei coroado com espinhos? Vitória por meio de aparente derrota? Vida por meio da morte?

Mas Paulo declara:

“A loucura de Deus é mais sábia do que os homens.” — 1 Coríntios 1:25

Na cruz, Deus desmonta nossa pretensão de autossuficiência. Não podemos salvar a nós mesmos. Não podemos pagar nossa dívida. Não podemos produzir nossa própria justiça. Precisamos receber.

O Evangelho começa quando finalmente abandonamos a frase: “Eu consigo sozinho.”

E confessamos: “Senhor, preciso de Ti.”


Cristo também nos mostra o caminho da humildade

Jesus possuía toda autoridade. Ainda assim, submeteu-se perfeitamente à vontade do Pai.

No Getsêmani, diante da cruz, orou:

“Não se faça a minha vontade, e sim a tua.” — Lucas 22:42

Essa oração é o oposto de ser sábio aos próprios olhos.

Não significa que Jesus estivesse pecaminosamente rebelde. Revela Sua perfeita submissão ao Pai diante do sofrimento que estava prestes a enfrentar.

A fé madura consegue dizer: “Senhor, isto é o que desejo. Mas acima do meu desejo está a tua vontade.”


Quando Deus contradiz nossos planos

Às vezes oramos esperando que Deus abra determinada porta, e ela fecha. Esperamos determinada resposta, ela não chega como imaginávamos. Planejamos um caminho, as circunstâncias mudam.

Nesses momentos, somos tentados a interpretar qualquer frustração como abandono.

Mas Provérbios 3 nos lembra de que nosso entendimento é limitado. Nós vemos uma parte. Deus vê o todo.

Isso não significa que todo sofrimento tenha uma explicação facilmente identificável.

Nem devemos responder à dor de alguém com frases simplistas como: “Deus fez isso porque tinha um plano melhor.”

Há situações em que simplesmente não sabemos por que determinada coisa aconteceu.

Fé também significa saber dizer: “Eu não sei.” E continuar confiando em Deus mesmo assim.


Há uma humildade santa em dizer “não sei”

Talvez uma das frases mais difíceis para algumas pessoas seja: “Não sei.”

Especialmente quando outros esperam uma resposta. Mas a Bíblia não exige que tenhamos explicações para tudo.

Jó recebeu inúmeros discursos de amigos que tinham respostas prontas para seu sofrimento. Eles estavam convencidos de que compreendiam a situação. Mas não compreendiam.

Às vezes, silêncio reverente é mais sábio que uma explicação apressada. Nem toda pergunta precisa receber imediatamente uma teoria.

Às vezes a resposta mais verdadeira é: “Não sei por que isso aconteceu. Mas permaneço confiando no caráter de Deus.”


O temor do Senhor também nos liberta do medo das pessoas

Quando Deus ocupa Seu devido lugar, a opinião humana começa a ocupar um lugar menor. Isso não significa desprezar pessoas. Mas significa não viver escravizado à aprovação delas.

Quem teme excessivamente as pessoas frequentemente modifica comportamento para agradá-las.

Quem teme ao Senhor pergunta primeiro: “O que é correto diante de Deus?”

Isso pode exigir coragem. Às vezes obedecer a Deus significa ser incompreendido. Em outras ocasiões, significa admitir publicamente que estávamos errados.

Nos dois casos, o temor do Senhor nos liberta da necessidade de proteger nossa imagem a qualquer custo.


Como perceber se estou sendo sábio aos meus próprios olhos?

Alguns sinais merecem atenção: Quando quase nunca admitimos erro. Quando ficamos imediatamente defensivos diante de correção. Quando procuramos conselhos apenas de quem concordará conosco. Quando interpretamos toda discordância como ataque. Quando utilizamos versículos para justificar decisões já tomadas. Quando nossas orações pedem confirmação, mas não direção. Quando acreditamos que experiência nos tornou incapazes de errar. Quando julgamos rapidamente as decisões dos outros sem conhecer toda a história. Quando nossa confiança depende mais de nossa capacidade do que de Deus.

Quando dizemos: “Eu sei o que estou fazendo” e deixamos de perguntar: “Senhor, estou andando contigo?”


Perguntas para examinar o coração

Provérbios 3:7 merece mais do que admiração. Merece aplicação.

Pergunte a si mesmo:

Existe alguma área da minha vida em que não quero que Deus interfira?

Tenho pedido direção ou apenas confirmação?

Como reajo quando alguém me corrige?

Existe alguém que tenha liberdade para me contrariar?

Estou chamando algum desejo pessoal de “vontade de Deus” sem examiná-lo pelas Escrituras?

Existe algo que Deus já chamou de errado e que ainda estou tentando justificar?

Tenho confundido uma oportunidade com uma direção de Deus?

Tenho confundido facilidade com aprovação divina?

Minha experiência me tornou mais humilde ou mais autossuficiente?

Estou tentando controlar algo que deveria entregar ao Senhor?

Existe algum mal do qual preciso parar de negociar e simplesmente me afastar?

Consigo sinceramente orar: “Senhor, se meus planos estiverem errados, corrige-me”?

Talvez essa última pergunta revele muito.


Uma oração

Senhor, reconheço que meu entendimento é limitado e que meu coração pode me enganar. Perdoa-me pelas vezes em que confiei mais em minha própria percepção do que em tua Palavra. Livra-me de ser sábio aos meus próprios olhos.

Dá-me um coração ensinável. Dá-me humildade para admitir quando estiver errado, sabedoria para ouvir bons conselhos e discernimento para examinar tudo à luz das Escrituras.

Ensina-me a temer o teu nome mais do que temo a opinião das pessoas. Mostra-me aquilo de que preciso me afastar e dá-me coragem para obedecer sem negociar com aquilo que já revelaste claramente.

Ajuda-me a fazer com responsabilidade aquilo que colocaste em minhas mãos e a entregar a ti aquilo que não posso controlar. Se meus planos estiverem errados, corrige-me. Se meus desejos estiverem ocupando o lugar da tua vontade, transforma-os. Se meu orgulho estiver impedindo que eu escute, quebranta meu coração.

Acima de tudo, mantém meus olhos em Cristo, minha sabedoria, justiça, santificação e redenção. Que minha confiança não esteja em minha capacidade de compreender tudo, mas em teu caráter e em tua fidelidade. Em nome de Jesus. Amém.


A sabedoria começa quando Deus volta ao centro

Provérbios 3:7 apresenta três movimentos:

“Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal.”

Primeiro, abandone a autossuficiência.

Depois, reconheça quem Deus é.

Então, ande de maneira coerente com essa verdade.

Não seja sábio aos próprios olhos. Você não enxerga tudo. Eu também não. Nossa experiência é limitada. Nossa percepção pode falhar. Nossos desejos podem influenciar nossas conclusões. Nosso coração pode encontrar argumentos para aquilo que deseja.

Mas Deus permanece Deus. Sua Palavra continua sendo verdade. Sua sabedoria não depende das nossas circunstâncias. E Sua graça nos permite admitir: “Senhor, eu preciso que Tu me ensines.”

Talvez maturidade espiritual não seja chegar ao ponto em que temos respostas para tudo. Talvez seja chegar ao ponto em que já não precisamos fingir que temos.

Podemos estudar e ainda depender de Deus. Planejar e ainda dizer: “Se o Senhor quiser.” Ter convicções e continuar ensináveis. Tomar decisões e submetê-las à Palavra. Reconhecer nossos erros sem perder nossa identidade. Afastar-nos do mal sem tentar descobrir até onde conseguimos chegar sem cair.

E quando não compreendermos o caminho, podemos confiar naquele que vê aquilo que nós não vemos.

A verdadeira sabedoria não começa quando finalmente sabemos tudo o que precisamos saber. Começa quando reconhecemos quem Deus é — e quem nós não somos.

Por isso, antes de dizer: “Eu sei o que estou fazendo”, talvez seja sábio perguntar: “Senhor, estou fazendo isso contigo?”

“Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal.” — Provérbios 3:7

Fernando paulo Ferreira (Fefo)

Blog do Fefo — Estudo, Reflexão e Palavra.

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