Unidos com Cristo em Sua Morte e Ressurreição

Reflexão Expositiva sobre Romanos 6:5

“Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição.” — Romanos 6:5 (ARA)

Romanos 6 nos conduz a uma das verdades mais profundas da vida cristã: aquele que está em Cristo não recebeu apenas o perdão dos pecados; recebeu também uma nova identidade.

O Evangelho não é simplesmente a mensagem de que Deus apaga nosso passado e nos permite continuar vivendo exatamente da mesma maneira.

Em Cristo, algo muito mais profundo acontece. Paulo descreve essa realidade através de uma união: morremos com Cristo e vivemos com Cristo.

É nesse contexto que encontramos Romanos 6:5:

“Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição.”

Para compreender a força dessa afirmação, precisamos observar a pergunta que Paulo está respondendo.

A graça significa que podemos continuar pecando?

No final de Romanos 5, Paulo havia exaltado extraordinariamente a graça de Deus:

“...onde abundou o pecado, superabundou a graça.” — Romanos 5:20 (ARA)

Alguém poderia distorcer essa afirmação e concluir: “Se quanto maior o pecado, maior a graça, então podemos continuar pecando para que a graça aumente.”

Paulo antecipa exatamente esse raciocínio:

“Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?” — Romanos 6:1 (ARA)

Sua resposta é enfática:

“De modo nenhum!” — Romanos 6:2 (ARA)

Por quê? Porque aquele que foi unido a Cristo possui uma nova relação com o pecado.

A graça não é licença para pecar

Esse é um dos primeiros ensinamentos fundamentais de Romanos 6. A graça é tão extraordinária que nenhum pecado é maior do que a capacidade de Deus de salvar aquele que verdadeiramente se volta para Cristo.

Mas isso não significa que o pecado tenha se tornado irrelevante. Pelo contrário. A mesma graça que perdoa também começa a transformar.

O cristão não pergunta: “Quanto posso pecar sem perder a salvação?”

A pergunta deveria ser: “Como posso viver de maneira coerente com a nova vida que recebi em Cristo?”

A graça não nos dá liberdade para o pecadoEla nos liberta do domínio do pecado.

“Porque, se fomos unidos com ele”

Paulo começa falando de uma união com Cristo. Essa é uma expressão extremamente importante. O cristianismo não consiste apenas em admirar Jesus à distância. Não consiste apenas em aceitar algumas de Suas ideias. A salvação envolve uma profunda identificação com Ele.

Paulo utiliza no contexto a imagem do batismo:

“Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo...” — Romanos 6:4 (ARA)

O batismo representa visivelmente essa realidade espiritual. Ao ser mergulhado nas águas, o cristão identifica-se com a morte e o sepultamento de Cristo.

Ao sair delas, representa uma nova vida. O poder não está simplesmente na água. A realidade para a qual o batismo aponta está na união do pecador com Cristo pela fé.

“Na semelhança da sua morte”

O que significa estar unido a Cristo na semelhança de Sua morte? Certamente não significa que morremos fisicamente na cruz como Jesus morreu.

Paulo está falando de nossa relação com a antiga vida dominada pelo pecado.

Logo depois, ele explica:

“Sabendo isto: que foi crucificado com ele o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído, e não sirvamos o pecado como escravos.” — Romanos 6:6 (ARA)

Aqui encontramos uma expressão importante: “nosso velho homem”.

Trata-se daquilo que éramos em nossa condição antiga, sob o domínio do pecado. Quando somos unidos a Cristo, nossa antiga condição deixa de definir nossa identidade.

O pecado continua presente. A tentação continua existindo. Ainda podemos tropeçar. Mas alguma coisa mudou radicalmente: o pecado não é mais nosso senhor.

O pecado perdeu o direito de governar

Existe uma diferença entre presença do pecado e domínio do pecadoEnquanto estivermos nesta vida, enfrentaremos tentações. O cristão ainda luta. Ainda precisa vigiar. Ainda precisa confessar seus pecados. Ainda precisa crescer em santidade.

Mas Paulo ensina que o pecado não deve mais governar nossa existência. Por isso ele declara:

“Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal...” — Romanos 6:12 (ARA)

Observe a palavra: “reine”. O pecado tenta governar. Mas perdeu o direito ao trono. Cristo agora é Senhor.

Morrer para o pecado não significa tornar-se incapaz de pecar

Às vezes Romanos 6 é interpretado como se o verdadeiro cristão tivesse se tornado incapaz de pecar. A própria experiência dos cristãos e o restante do Novo Testamento mostram que não é esse o sentido.

João escreve:

“Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós.” — 1 João 1:8 (ARA)

Portanto, morrer para o pecado não significa ausência absoluta de pecado. Significa uma mudança de senhorio, identidade e direção.

Antes, o pecado caracterizava nossa condição. Agora, pertencemos a Cristo e lutamos contra aquilo que antes nos dominava.

Existe uma enorme diferença entre cair durante a batalha e entregar-se voluntariamente ao inimigo.

“Certamente, o seremos também”

Depois de falar sobre a morte, Paulo dirige nossos olhos para a vida. “Certamente, o seremos também...”

Existe segurança nessas palavras. Nossa união com Cristo não termina no túmulo. O Evangelho não é apenas uma mensagem sobre morte. É uma mensagem sobre ressurreição.

Cristo morreu. Mas Cristo ressuscitou. E aqueles que pertencem a Ele participam da esperança dessa vitória.

“Na semelhança da sua ressurreição”

Essa expressão possui uma riqueza extraordinária. A ressurreição de Cristo aponta primeiramente para nossa esperança futura. Paulo ensina em outros lugares que aqueles que pertencem a Cristo também ressuscitarão.

“Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus...” — 2 Coríntios 4:14 (ARA)

Portanto, a morte física não terá a palavra final sobre o cristão. Nossa esperança não é simplesmente que a alma sobreviva. Nossa esperança cristã inclui ressurreição.

Assim como Cristo venceu a morte, aqueles que estão unidos a Ele também participarão dessa vitória.

Mas a nova vida começa agora

Entretanto, Romanos 6 não fala apenas do futuro. O versículo anterior declara:

“...assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida.” — Romanos 6:4 (ARA)

Existe uma ressurreição futura. Mas existe também uma novidade de vida presenteO cristão deve começar hoje a viver de maneira coerente com aquilo que Deus realizou nele.

Não esperamos chegar ao céu para que alguma transformação aconteça. A nova vida começa agora.

O Evangelho transforma nossa identidade

Muitas pessoas constroem sua identidade sobre o próprio passado. Dizem: “Eu sempre fui assim.” “Não consigo mudar.” “Esse é meu jeito.” “Meu passado me define.”

Romanos 6 apresenta uma realidade diferente. Se estamos em Cristo, nossa identidade fundamental não está mais naquilo que fomos. Está naquele a quem pertencemos.

Isso não significa que todas as consequências do passado desapareçam instantaneamente. Também não significa que mudanças profundas aconteçam sem luta.

Mas significa que podemos dizer: “Meu passado explica muitas coisas sobre mim, mas não possui autoridade para determinar quem serei em Cristo.”

Santificação é consequência, não preço da salvação

Aqui precisamos evitar outro erro. Ao falar de transformação, alguém poderia concluir que precisamos vencer o pecado para conquistar a salvação.

Paulo ensina exatamente o contrário. Somos salvos pela graça. A transformação vem como consequência daquilo que Deus realizou, não como pagamento para que Ele nos aceite.

Primeiro somos unidos a Cristo. Depois aprendemos a viver de acordo com essa nova identidade.

A santidade não compra a salvação. Ela é fruto da salvação.

O batismo como declaração pública

Dentro do contexto de Romanos 6, o batismo possui enorme significado. Ele anuncia: A velha vida ficou para trás. Agora pertenço a Cristo.

Isso torna o batismo muito mais do que uma tradição religiosa. É um sinal visível do Evangelho. Morte. Sepultamento. Ressurreição. Nova vida.

Cada vez que a Igreja presencia um batismo, ela vê diante dos olhos uma representação daquilo que Cristo realizou.

O cristão precisa considerar verdadeira sua nova identidade

Poucos versículos depois, Paulo escreve:

“Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus.” — Romanos 6:11 (ARA)

Isso significa que precisamos aprender a enxergar nossa vida a partir daquilo que Deus declarou.

Quando a tentação aparece, não precisamos simplesmente pensar: “Espero conseguir resistir.”

Podemos lembrar: “Eu não pertenço mais a esse senhor.”

Quando o passado acusa: “Você continua sendo aquilo que sempre foi.”

O Evangelho responde: “Você está em Cristo.”

Nossa luta contra o pecado começa também na compreensão de nossa identidade.

Não ofereça novamente aquilo que pertence a Deus

Paulo continua:

“Nem ofereçais cada um os membros do seu corpo ao pecado, como instrumentos de iniquidade; mas oferecei-vos a Deus...” — Romanos 6:13 (ARA)

Aqui encontramos uma aplicação extremamente prática. Nossos olhos podem ser instrumentos para o pecado ou para Deus. Nossa boca pode servir ao pecado ou a Deus. Nossas mãos podem servir ao pecado ou a Deus. Nosso dinheiro. Nosso tempo. Nossa inteligência. Nossa influência. Nosso corpo.

Tudo pode ser colocado à disposição de um senhor.

A pergunta é: A quem estamos nos oferecendo?

A ressurreição muda nossa maneira de viver

Se Cristo ressuscitou e nós estamos unidos a Ele, não podemos viver como se esta vida fosse tudo o que existe.

A ressurreição muda nossas prioridades. Muda nossa relação com o sofrimento. Muda nossa relação com a morte. Muda nossa relação com o pecado. Muda nossa esperança.

O cristão pode olhar para o túmulo e saber: isso não é o fim.

Pode olhar para seu passado e dizer: isso não é mais meu senhor.

Pode olhar para Cristo e afirmar: minha vida está nele.

Aplicação para os dias atuais

Romanos 6:5 nos convida a examinar seriamente nossa caminhada. Precisamos perguntar:

  • Tenho tratado a graça como liberdade para pecar ou como libertação do domínio do pecado?

  • Existe algum pecado que continuo permitindo governar determinada área da minha vida?

  • Minha identidade está em Cristo ou ainda vivo aprisionado ao meu passado?

  • Minha vida demonstra alguma evidência de “novidade de vida”?

  • Tenho compreendido o significado do meu batismo?

  • Vivo com a esperança real da ressurreição?

  • Tenho colocado meu corpo, minhas capacidades e minhas escolhas à disposição de Deus?

Essas perguntas não servem para produzir uma religiosidade baseada em culpa. Servem para nos lembrar da grandeza daquilo que recebemos.

Quando a luta contra o pecado parece longa

Talvez alguém leia este texto enquanto enfrenta repetidamente a mesma tentação. Romanos 6 não manda fingir que a batalha não existe. Ele nos lembra de qual lado estamos lutando.

A presença da batalha não significa necessariamente ausência de transformação. Às vezes, o próprio fato de agora existir luta demonstra que alguma coisa mudou.

Aquilo que antes era aceito sem resistência agora produz tristeza, arrependimento e desejo de mudança. Não transforme uma queda em autorização para permanecer caído.

Confesse. Levante-se. Busque ajuda quando necessário. Volte seus olhos para Cristo. E continue lutando.

Conclusão

Romanos 6:5 apresenta duas realidades inseparáveis: morte e ressurreição.

Em união com Cristo, nossa antiga condição sob o domínio do pecado foi atingida pela cruz. E, unidos a Cristo ressuscitado, recebemos uma nova vida e a esperança de nossa futura ressurreição.

O Evangelho, portanto, não diz simplesmente: “Seus pecados foram perdoados.”

Ele também anuncia: “Agora você pertence a Cristo.”

Não precisamos continuar vivendo como escravos de um senhor que perdeu seu direito sobre nós. Podemos caminhar em novidade de vida. Não porque alcançamos perfeição. Não porque nunca mais enfrentaremos tentações. Não porque nossa força seja suficiente. Mas porque estamos unidos Àquele que morreu e ressuscitou.

A cruz declara que nossa antiga vida não precisa mais nos dominar. A ressurreição declara que uma nova vida começou.

E um dia, quando Cristo vencer definitivamente em nós até mesmo o último inimigo — a morte — compreenderemos plenamente a grandeza dessa promessa:

“Porque, se fomos unidos com ele na semelhança da sua morte, certamente, o seremos também na semelhança da sua ressurreição.” — Romanos 6:5 (ARA)

Quem está unido a Cristo não é chamado apenas a acreditar na ressurreição. É chamado a começar, desde agora, a viver como alguém alcançado pela vida do Ressuscitado.

Fernando Paulo Ferreira (Fefo)

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