Como Eu Vos Amei
Reflexão Expositiva sobre João 13:34
“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.” — João 13:34 (ARA)
Poucas palavras resumem tão profundamente a identidade do discípulo de Jesus quanto aquelas pronunciadas por Cristo em João 13:34.
“Assim como eu vos amei.”
Jesus não apenas ordenou que Seus discípulos amassem. Ele estabeleceu a Si mesmo como padrão desse amor.
Isso torna o mandamento muito mais profundo. Amar quando somos amados é relativamente fácil. Amar quando somos reconhecidos, respeitados e tratados como esperamos também não exige algo extraordinário.
Mas Jesus apresenta outro padrão. O amor cristão não pergunta somente: “Como essa pessoa me tratou?” Ele pergunta: "Como Cristo me tratou?”
E essa mudança de referência transforma completamente nossos relacionamentos.
O contexto: Jesus está caminhando para a cruz
Para compreender João 13:34, precisamos observar quando essas palavras foram pronunciadas. Jesus estava vivendo Suas últimas horas antes da crucificação.
No início do capítulo, João declara:
“...tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim.” — João 13:1 (ARA)
Pouco depois, Jesus se levanta da mesa, coloca uma toalha ao redor da cintura e começa a lavar os pés dos discípulos. O Senhor assume a posição de servo. Mais impressionante ainda: Judas estava ali.
Jesus sabia que seria traído. Pedro também estava presente. Jesus sabia que ele O negaria. Os demais discípulos logo fugiriam.
Mesmo conhecendo perfeitamente suas fraquezas, Jesus continuou servindo. É nesse ambiente que devemos ouvir: “Assim como eu vos amei.”
“Novo mandamento vos dou”
Talvez alguém pergunte: O mandamento de amar era realmente novo?
Afinal, muito antes de Jesus, a Lei já declarava:
“...amarás o teu próximo como a ti mesmo.” — Levítico 19:18 (ARA)
Portanto, o amor ao próximo não começou em João 13. O que encontramos agora é uma nova dimensão. Antes, o mandamento dizia: “Como a ti mesmo.” Jesus declara: “Assim como eu vos amei.”
O padrão agora está explicitamente revelado na pessoa e na obra de Cristo. Não devemos apenas amar segundo nossa capacidade natural. Somos chamados a olhar para Jesus e aprender com Ele como amar.
“Que vos ameis uns aos outros”
O cristianismo não pode ser vivido apenas verticalmente. Não podemos dizer que amamos a Deus enquanto desprezamos constantemente aqueles que Ele colocou ao nosso redor.
João desenvolveria essa verdade posteriormente em sua primeira carta:
“Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso...” — 1 João 4:20 (ARA)
Nossa relação com Deus inevitavelmente aparece em nossos relacionamentos. Isso não significa que cristãos nunca terão conflitos. Terão. Não significa que sempre concordarão. Não concordarão.
Também não significa que todos possuirão personalidades compatíveis. Mas significa que existe algo maior do que nossas diferenças: pertencemos ao mesmo Cristo.
“Assim como eu vos amei”
Aqui está o coração do versículo. Jesus não disse simplesmente: “Amem bastante.”
Ele disse: “Assim como eu vos amei.”
Portanto, precisamos perguntar: Como Jesus amou?
A resposta aparece em todo o Evangelho. Ele amou servindo. Amou perdoando. Amou ensinando. Amou corrigindo. Amou aproximando-Se dos rejeitados. Amou dizendo a verdade. Amou tendo compaixão. E, finalmente, amou entregando a própria vida.
O amor de Cristo não foi apenas sentimento. Foi ação.
O amor de Cristo serve
Pouco antes de entregar esse mandamento, Jesus havia lavado os pés dos discípulos. Depois perguntou:
“Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.” — João 13:14 (ARA)
O amor cristão não procura apenas posições de destaque. Ele sabe servir. Isso confronta profundamente nossa natureza. Gostamos de ser reconhecidos. Gostamos de receber. Gostamos de ser valorizados.
Jesus coloca uma toalha nas mãos do discípulo e pergunta: “Você está disposto a servir?”
Muitas vezes o amor aparece justamente nas coisas pequenas. Ouvir alguém. Ajudar sem publicidade. Oferecer tempo. Carregar um fardo. Estar presente. Fazer aquilo que ninguém perceberá.
O amor de Cristo não precisa de palco para existir.
O amor de Cristo também diz a verdade
Existe um equívoco comum sobre o amor. Algumas pessoas imaginam que amar significa concordar com tudo. Mas Jesus nunca fez isso.
Cristo demonstrou compaixão extraordinária pelos pecadores e, ao mesmo tempo, chamou pessoas ao arrependimento. Ele acolhia sem transformar o pecado em virtude. Perdoava sem dizer que o erro era irrelevante. Portanto: amor sem verdade torna-se permissividade.
Mas existe também o perigo contrário: verdade sem amor pode transformar-se em crueldade.
Jesus mantém ambos unidos. O discípulo precisa aprender a fazer o mesmo.
O amor de Cristo é sacrificial
Poucas horas depois dessas palavras, Jesus demonstraria de maneira definitiva aquilo que significava: “Como eu vos amei.”
Ele iria para a cruz.
Mais tarde João escreveria:
“Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós...” — 1 João 3:16 (ARA)
A cruz define o amor cristão. Amar envolve disposição para abrir mão de alguma coisa pelo bem do outro. Às vezes será nosso tempo. Às vezes nosso conforto. Às vezes nosso orgulho. Às vezes o desejo de ter a última palavra. Às vezes precisaremos perdoar quando preferiríamos alimentar ressentimento.
O amor que nunca custa nada provavelmente ainda conhece pouco da cruz.
Amar não significa permitir tudo
Entretanto, o amor sacrificial de Cristo não deve ser utilizado para justificar relacionamentos destrutivos. Jesus amou perfeitamente, mas também confrontou. Estabeleceu limites. Retirou-Se de determinadas situações. Denunciou hipocrisia.
Portanto, amar alguém não significa permitir manipulação, violência, abuso ou comportamento destrutivo. É possível amar e estabelecer limites. É possível perdoar e reconhecer que a confiança precisa ser reconstruída. É possível desejar o bem de alguém e, ao mesmo tempo, manter uma distância necessária.
O amor bíblico não é ausência de sabedoria.
Amor e perdão
Relacionamentos entre pessoas imperfeitas inevitavelmente produzirão feridas. Por isso, o amor cristão precisa aprender a perdoar.
Paulo escreve:
“...assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós.” — Colossenses 3:13 (ARA)
Observe novamente o padrão: “Assim como o Senhor...”
Perdoamos porque fomos perdoados. Isso não torna o pecado pequeno. Pelo contrário. O perdão cristão reconhece que houve uma dívida, mas decide não transformar essa dívida em alimento permanente para a vingança.
Perdoar pode ser difícil. Em algumas situações, profundamente difícil. Mas a cruz nos lembra que nós também vivemos diariamente da misericórdia que recebemos.
Jesus amou pessoas imperfeitas
Talvez uma das coisas mais consoladoras de João 13 seja observar quem estava sentado naquela mesa. Não eram homens perfeitos. Eles discutiam sobre quem seria o maior. Tinham dificuldades para compreender os ensinamentos de Jesus. Pedro O negaria. Tomé teria dificuldades para acreditar. Os demais fugiriam.
Mesmo assim: “...amou-os até ao fim.”
Isso também nos ensina algo sobre a Igreja. Não encontraremos uma comunidade formada por pessoas perfeitas. A Igreja é composta por pessoas que estão sendo transformadas.
Isso significa que precisaremos exercer paciência, misericórdia e perdão. Assim como os outros precisarão exercer essas mesmas coisas conosco.
O versículo seguinte apresenta uma consequência extraordinária
Jesus continua:
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” — João 13:35 (ARA)
Isso é impressionante. Jesus apresenta o amor entre Seus discípulos como uma evidência pública do discipulado.
O mundo deveria conseguir observar uma comunidade cristã e perceber algo diferente. Não necessariamente porque todos pensam igual. Não porque nunca existem conflitos. Mas porque pessoas muito diferentes conseguem permanecer unidas em Cristo, perdoar, servir e cuidar umas das outras.
Nossa maneira de amar pode tornar visível aquilo que afirmamos crer.
Ortodoxia sem amor é uma contradição
Doutrina correta é indispensável. A verdade importa. Devemos examinar ensinamentos à luz das Escrituras. Mas existe um perigo: defender corretamente a verdade enquanto tratamos pessoas de maneira completamente incompatível com Cristo.
Paulo já havia advertido:
“Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência... se não tiver amor, nada serei.” — 1 Coríntios 13:2 (ARA)
Não precisamos escolher entre verdade e amor. O cristianismo bíblico exige ambos.
Podemos ser teologicamente cuidadosos e misericordiosos. Podemos defender convicções e tratar pessoas com dignidade. Podemos corrigir erros sem transformar quem errou em inimigo.
Amar não é apenas sentir
Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes do mandamento. Sentimentos variam. Existirão dias em que será fácil demonstrar carinho. Em outros, não.
Se o amor dependesse exclusivamente de sentimentos, o mandamento de Jesus seria impossível de cumprir conscientemente.
O amor bíblico envolve decisões. Escolher servir. Escolher ouvir. Escolher perdoar. Escolher controlar palavras. Escolher não retribuir mal com mal. Escolher buscar o bem do outro.
Os sentimentos podem acompanhar essas decisões. Mas o amor não pode depender exclusivamente deles.
O desafio das redes sociais
João 13:34 possui enorme relevância em nossos dias. As redes sociais transformaram discordâncias em espetáculos públicos. Pessoas são facilmente rotuladas, humilhadas e atacadas.
Infelizmente, cristãos também podem participar dessa cultura. Podemos publicar versículos pela manhã e destruir alguém com palavras à tarde. Podemos defender doutrinas corretas utilizando um comportamento completamente contrário ao caráter de Cristo.
Antes de comentar, responder ou compartilhar algo sobre outra pessoa, talvez devêssemos perguntar: A maneira como estou fazendo isso permite que alguém reconheça em mim um discípulo de Jesus?
Não significa abandonar a verdade. Significa defender a verdade como alguém que pertence àquele que é a Verdade.
O amor começa perto
É relativamente fácil falar sobre amar a humanidade. Mais difícil é amar pessoas concretas. A família. O irmão da igreja. O colega de trabalho. A pessoa que nos interrompe. Aquela que pensa diferente. Aquela que nos decepcionou. Aquela cuja personalidade nos incomoda.
É nesses relacionamentos cotidianos que João 13:34 deixa de ser apenas um versículo bonito. O amor cristão começa perto.
Não conseguimos amar assim sozinhos
Se formos sinceros, o padrão estabelecido por Jesus é alto demais para nossas forças naturais. “Como eu vos amei.”
Quem consegue amar perfeitamente dessa maneira? Nenhum de nós. Por isso, esse mandamento também nos conduz à dependência de Deus. Precisamos que o Espírito Santo transforme nosso coração.
Paulo ensina:
“Mas o fruto do Espírito é: amor...” — Gálatas 5:22 (ARA)
O amor cristão não é apenas resultado de esforço moral. É fruto da atuação de Deus em nós.
Quanto mais permanecemos em Cristo, mais Seu caráter deve aparecer em nossa maneira de tratar as pessoas.
Aplicação para nossa vida
João 13:34 nos convida a uma avaliação que vai muito além de nossas palavras.
Precisamos perguntar:
Minha maneira de tratar as pessoas demonstra o amor de Cristo?
Sei servir quando ninguém está observando?
Tenho confundido amor com aprovação de tudo?
Consigo dizer a verdade sem utilizar a verdade como arma para ferir?
Existe alguém que preciso perdoar?
Tenho exigido dos outros uma perfeição que eu mesmo não possuo?
Minhas atitudes nas redes sociais são coerentes com minha fé?
As pessoas mais próximas conseguem perceber Cristo na maneira como eu as trato?
Meu amor depende apenas da reciprocidade?
Talvez algumas respostas nos incomodem. Mas a luz da Palavra não revela nossas falhas para nos conduzir ao desespero. Ela nos chama ao arrependimento e à transformação.
Conclusão
Jesus não disse apenas: “Amai-vos uns aos outros.”
Ele acrescentou algo que muda tudo: “Assim como eu vos amei.”
Esse é o padrão. Um amor que serve. Um amor que fala a verdade. Um amor que perdoa. Um amor que suporta. Um amor que busca o bem. Um amor que não depende simplesmente de reciprocidade. Um amor disposto ao sacrifício. E, acima de tudo, um amor cuja expressão máxima encontramos na cruz.
Talvez o mundo não leia nossas Bíblias. Talvez nunca entre em nossas igrejas. Talvez não ouça nossos sermões. Mas certamente observará como tratamos as pessoas.
E Jesus declarou que justamente aí existe uma poderosa evidência de que pertencemos a Ele:
“Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros.” — João 13:35 (ARA)
Por isso, a pergunta de João 13:34 não é simplesmente: “Eu amo?”
A pergunta mais profunda é: “Estou aprendendo a amar como Cristo me amou?”
Porque o amor cristão não encontra seu padrão em nossos sentimentos, na cultura ou naquilo que recebemos dos outros. Seu padrão é Cristo.
E quanto mais compreendemos como Ele nos amou, mais somos chamados a fazer desse amor uma realidade visível em nossos relacionamentos.
Fernando Paulo Ferreira (Fefo)
Amém! Obrigado por compartilhar Fenando. Que Deus continue a lhe abençoar, abundantemente.
ResponderExcluirAmém! Obrigado Marcelão!
Excluir